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Psicologia
Big Brother: divagações concretas
Atualizada terça-feira, 4 de maio de 2010

Ao assistir a alguns episódios do Big Brother Brasil 10 fiquei com algumas impressões sobre as quais agora me proponho a pensar.

Toda vez que estive diante do BBB experimentei algumas sensações como marasmo ou tédio, vazio e aflição. Fico admirada com a tranqüilidade com que os participantes, objetos do Grande Irmão, se eximem de qualquer compromisso com uma troca mais interessante entre eles e os telespectadores. Afinal, eu me sentiria quase na obrigação de agradecer àqueles que generosamente estão sentados me assistindo. E acredito que teria algum pudor de me largar numa atitude de quase ausência de conteúdo, um vazio para mim aflitivo.

Ao me imaginar uma possível BBB, me inclinei a buscar que grandeza, então, eu teria a oferecer e que poderia enriquecer não apenas a mim e não só exclusivamente no sentido material, representado pelo prêmio de 1 milhão e meio. Imaginei-me, então, tocando piano, mas me lembrei que o confinamento proposto exclui os recursos concretos de que cada participante poderia se valer. Não poderia levar meu piano! Teria que contar com as riquezas exclusivamente internas e naturais, digamos, que levo dentro de mim. Pensei então que eu poderia cantar, declamar, contar histórias, criar idéias, dançar, encenar parte de uma peça teatral. Se me fosse permitido sonhar, eu poderia contar meus sonhos, o que já colocaria, frente a frente, o mundo onírico e o real, produzindo alguma graça a partir dessa relação. A graça poderia estar na desgraça também, no trágico! O que importaria seria poder dar a ver ao espectador algum compromisso com uma expressão estética, como acontece na arte.

O Big Brother Brasil, programa no qual os participantes têm a oportunidade de sentir-se artistas, ironicamente não é arte. É realismo puro. E por isso é entediante. O poeta Ferreira Gullar já disse que a arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta. Disse ainda que a grande arte inventa o real, subverte-o, enriquece-o. Para ele, copiar a realidade é chover no molhado. É a vida no concreto.

Eu acrescentaria que a arte existe porque a realidade é, além de pouca, muitas vezes insuportável. Com a arte pode haver deslumbramento, emoção, sonho e criatividade.

Curioso foi observar, também, num certo episódio, que antes de se assentarem para assistir a um filme que seria exibido pela produção do programa, os três finalistas da edição 2010 entraram num impulso de devorar os quitutes ofertados, numa ansiedade que poderia ser justificada pela espera que antecedia o resultado final. A voracidade, aliás, se revela o tempo todo num consumo não só de comida, mas de gente, de popularidade e de dinheiro.

Também me lembrou uma cena freqüente, hoje em dia, nas salas de cinema. As pessoas não compram apenas ingressos, mas armam verdadeiros piqueniques. São pacotes enormes de pipoca, refrigerantes, sucos e chocolates dos mais variados, que desfilam pelos corredores. Que associações haveria entre a disposição do telespectador e aquilo que ele irá assistir? Aquele que assiste está exposto a imagens, histórias, sons, emoções e pensamentos e é preciso dispor, então, de uma mente que acolha tudo isso e faça seu trabalho de elaboração. Podemos sair vazios do cinema, ou então, repletos de emoção. Já ouvi gente dizer: “Eu não vou ao cinema para pensar, vou para me divertir”. Na atual novela da Globo, Viver a Vida, a personagem que cuida de Luciana, uma enfermeira, comentou: “Quando vou assistir comédias românticas, deixo meu cérebro em casa”. Pelo jeito, para essa gente, pensar é sempre doloroso e nada divertido.

E dispormo-nos ao filme com a barriga cheia de guloseimas, poderia ser uma forma de conter outros conteúdos que poderiam ameaçar invadir nossa mente? Afinal, estamos ali pra comer ou pra ouvir uma história?

Um paciente, adolescente, assim que se lançou ao divã, disse: “Ah, acho que não vou conseguir nem pensar, acabei de comer um hambúrguer e estou com a barriga cheia”. Barriga e mente fazem uma aliança. A primeira se farta para proteger a outra, que fica vazia.

No último dia do BBB10 tomei minhas providências. Comprei pipoca, amendoim, batata, sorvete e muito, mas muito refrigerante.


Élide Camargo Signorelli

Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

e-mail: elidesig@hotmail.com

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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