Sistema de Ensino Integral
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Psicologia
Dá licença para o bebê passar?
Atualizada segunda-feira, 28 de junho de 2010

Esses dias, em conversa com uma gestante que está próxima ao parto, me flagrei desejando-lhe “uma boa hora”. Esse voto representava uma antiga maneira de as pessoas, especialmente mulheres mais idosas, expressarem seu desejo de que a parturiente fosse feliz em sua experiência de parto. A boa hora vem adquirindo feições diferentes ao longo dos anos. Antigamente o parto acontecia na casa da família. A parteira, figura quase folclórica, era a pessoa destinada a realizar o feito de separar mãe e filho. Ela chegava à casa da parturiente e dirigia-se ao quarto, com porta fechada, que guardava as duas mulheres, cada uma na sua função de dar à luz uma nova criança. Do outro lado da porta ficavam o pai, as crianças, todos em atitude de respeito, aceitando tratar-se de momento particular, onde o mistério da vida se concretizaria. O clima era de apreensão, expectativa e silêncio.
Aos poucos, a cena do parto foi transferida para o hospital ou maternidade. Com a crescente preocupação em higienizar o ambiente e equipá-lo com as melhores condições possíveis, a parteira cedeu lugar ao médico. E, com o médico, entraram no quarto outras pessoas: anestesistas, instrumentadores, pediatras. Aliás, o quarto se transformou em sala cirúrgica, sala branca, fria, com instrumentos prateados, e ocupada por figuras brancas, encapuzadas e amordaçadas.
Uma vez que o parto saiu porta afora da casa da família, foi ganhando visibilidade no ambiente público e o que se veem são crescentes e irrefreáveis adaptações ao estilo do mundo contemporâneo. O pai, completamente despreparado para a experiência, passou a frequentar a sala cirúrgica, munido com sua câmera, mais na posição de voyeur e cinegrafista do que de pai, que pelo menos poderia estar ao lado de sua mulher, dando-lhe presença afetiva. A chegada do bebê torna-se espetáculo, como várias outras situações da vida cotidiana – aniversários, batizados, casamentos e até velórios.
Cito Freud, psicanalista que atribuiu ao nascimento o status de trauma. Por ser momento de ruptura, de mudança drástica de estado – de uterino para o ambiente externo –, o nascimento foi considerado, por ele, momento de grande impacto emocional para a mãe e especialmente para o bebê. Basta colocarmo-nos no lugar do bebê para reconhecermos que sair de dentro do útero, local restrito, escuro, silencioso e absolutamente provedor, para o ambiente externo, iluminado, barulhento, com formas e dimensões amplificadas e diferenciadas, é uma experiência de “tirar o fôlego”, coisa que – paradoxalmente – o bebê não pode sofrer, pois, ao contrário, tem de testar seu fôlego, passando, a partir daí, a colocá-lo em uso para sua sobrevivência. É um trauma devido à intensidade do acontecimento que provoca mudança radical aliada ao amplo espectro de emoções envolvidas nesse momento.
Muita gente grande se ressente ao ter de mudar de casa, ou, menos que isso, mudar de quarto, escritório, cadeira, xícara ou até escova de dente! O que diríamos de mudar de estado vital, de útero para mundo externo? Sem falar que o protagonista dessa história não é um adulto e sim um bebê, com limitadíssimas condições para compreender o que está acontecendo com ele, momento que mais parece de morte que de vida.
Será que consegui transmitir a seriedade da situação? Será que usamos à toa, então, a expressão “aquilo foi um parto”, quando desejamos expressar o quanto uma ocorrência foi difícil, intensa ou mesmo traumática? Pois é, esses dias fiquei sabendo que já existem empresas especializadas em filmar o parto e transmitir, ao vivo, pela internet, a “boa hora”, para os familiares e amigos que ficariam sentados diante da tela do computador, assistindo ao trauma do nascimento. Certamente não é ao trauma que assistem e sim ao espetáculo do nascimento, em que só há lugar para luzes, câmeras e ação.
Posso imaginar a cena: a equipe médica, quase sempre conversando sobre futebol, protegendo-se da angústia diante da responsabilidade de seu papel ali; o pai, quase sempre pálido e ameaçando chamar a atenção e cuidados para si; a empresa de filmagem, equipadíssima com as melhores câmeras e com a máxima intenção de tornar o momento glamouroso.  Ah, me esqueci da mãe. Ela também está na sala. Felizmente não há quem possa ocupar seu lugar. A esperança é de que ela consiga proteger um espaço mental para seus sentimentos e para encontrar a sintonia necessária para receber seu filho.
Temo que da empresa de filmagem se desdobrem outras especialidades: trilha sonora, montagem de fotos dos pais desde bebês, depoimentos das pessoas envolvidas, tudo isso exibido em grande tela, salas cirúrgicas reformadas para tornar o ambiente mais fantástico, souvenires cada vez mais sofisticados – interativos e divertidos – e me perdoem, pois minha imaginação não consegue ir além devido a limitações próprias da minha geração.

O bebê? Este deve ser o palhaço que falta a este circo. 

 

 

Élide Camargo Signorelli

Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

e-mail: elidesig@hotmail.com

 

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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