No artigo “Arqueologia subaquática”, os arqueólogos
Gilson Rambelli, mestre e doutorando em arqueologia pelo Museu de Arqueologia
e Etnologia (MAE/USP) e representante brasileiro no International Committe
on Underwater Cultural Heritage (Icuch/Icomos/Unesco Paulo Bava de Camargo,
mestre em arqueologia pela mesma instituição; e o oceanógrafo e mestrando em
arqueologia no MAE – USP, Flávio Rizzi Calippo, trazem aos leitores do Zoom uma
aparente novidade: a arqueologia subaquática, ramo da arqueologia que pesquisa
a cultura material submersa.
Sócios-fundadores do Centro de Estudos de Arqueologia
Náutica e Subaquática (Ceans), esses pesquisadores nos mostram uma importante
lição de preservação de patrimônio cultural e, também, como a política, quando
ligada a interesses estritamente econômicos, pode atrapalhar a pesquisa científica
e privar as gerações futuras de preciosas informações.
Isso porque, arqueologia subaquática pode logo levar
nossas mentes a Indiana Jones de escafandro roubando embarcações soçobradas
e constituindo coleções particulares de raros artefatos. Aliás, os jornais
e revistas vivem cheios desses casos. Mas, aqui, estamos falando de coisa
séria: um combate à pirataria e um empenho pela preservação patrimonial.
O melhor: você entenderá como pode ajudar e até mesmo sobre a possibilidade
de cursos de mergulho dessa natureza visitando os links e o livro
recomendados no “Para saber mais”.
Mergulhe de cabeça e entenda mais sobre o assunto
desfrutando dessa agradável leitura!
Arqueologia subaquática: atribuição da arqueologia
A arqueologia subaquática é a própria arqueologia
realizada no ambiente aquático. Logo, é uma ciência social que estuda as
sociedades passadas por meio da análise e interpretação de seus restos materiais
– cultura material – em seus devidos contextos.
O fato de testemunhos materiais de atividades
humanas passadas estarem submersos – cultura material – não deve servir para
descaracterizar a importância deles enquanto sítios arqueológicos, enquanto
patrimônio cultural subaquático nem mesmo da pesquisa arqueológica sistemática
a ser realizada in situ, embaixo d´água.
Para isso, o arqueólogo subaquático, além de
levar as ferramentas típicas de qualquer trabalho de campo em arqueologia,
como o pincel, a colher de pedreiro, as trenas, o caderno de campo, entre
outros itens, ele leva também o seu equipamento de mergulho. Cabe ressaltar
que, levar o ar para respirar, adaptar alguns métodos e técnicas ao ambiente
aquático e ter cuidados especiais com a conservação dos objetos que compõem
os sítios submersos são as únicas diferenças entre a arqueologia terrestre
e a subaquática.
Portanto, urge a necessidade de essa arqueologia
subaquática que estamos apresentando ser desvinculada, no Brasil, do conceito
errôneo de disciplina sui generis, auxiliar da História, considerada
como um simples ramo do mergulho, e comandada por aventureiros gananciosos
e/ou sonhadores, que buscam apenas glória e lucro com a exploração e a comercialização
desses bens culturais subaquáticos encontrados, sobretudo, em restos de embarcações
naufragadas.
 |
Arqueólogo se preparando para iniciar seu trabalho de campo (Foto:
Fernando Andrade) |
 |
Arqueólogos realizando o levantamento de um sítio submerso (Foto:
Fábio Pereira – Hydrosphera) |
 |
Arqueólogos realizando a planimetria do casco de uma embarcação
naufragada (Foto Gui Garcia, CNANS/Portugal) |
O lobby das empresas de caça ao tesouro
Os bens culturais submersos
no Brasil e principalmente os sítios arqueológicos de naufrágios são alvos
fáceis da ação inescrupulosa de empresas de caça ao tesouro, que destroem
esse patrimônio em nome da livre iniciativa, e da ação irresponsável de mergulhadores
aventureiros – caçadores de souvenires – que se divertem nos finais
de semana arrancando “peças” de navios afundados.
Infelizmente, esse descaso
para com o patrimônio cultural subaquático é tratado em uma legislação específica,
a Lei Federal 10.166, sancionada no dia 27 de dezembro de 2000 – em pleno
recesso de final de ano –, a qual permite a exploração dos sítios de naufrágios
em águas brasileiras por empresas estrangeiras de caça ao tesouro e também
a comercialização dos bens recolhidos nessas intervenções.
A Lei 10.166/00 representa claramente a força
do lobby político das empresas de caça ao tesouro em nosso país. Pois
o Projeto de Lei nº 4.285/1993, inspirado no projeto original de autoria do ex-deputado
federal Fábio Feldmann (e ex-Secretário do Meio Ambiente do Estado de São
Paulo), que permitia o livre ingresso de estrangeiros no país e o fim do
domínio exclusivo da União sobre os bens culturais, artísticos e arqueológicos
submarinos, tramitou pelo Congresso Nacional sofrendo algumas modificações,
mas acabou sendo aprovado mesmo apresentando inúmeras deficiências e contradições,
inclusive constitucional.
Não é preciso ser um especialista em leis
para perceber que esta nova Lei Federal, que atribui valor comercial ao
patrimônio cultural subaquático, contradiz a própria Constituição Brasileira
de 1988. Vale lembrar o artigo 216, que diz:
“Constituem patrimônio cultural brasileiro
os bens de natureza material e imaterial tomados individualmente ou em
conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira nos quais se incluem:
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas
e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações
e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico
e científico (...)” (Constituição Brasileira, 1988).
Cabe ressaltar que esse tema
“molhado” da arqueologia nunca foi novidade para nossos dirigentes políticos,
pois os sítios arqueológicos submersos são protegidos no mundo há décadas
por tratados, cartas e convenções internacionais, como a Convenção das
Nações Unidas sobre o Direito do Mar, concluída em Montego Bay, Jamaica,
em 10 de dezembro de 1982, e da qual o Brasil é signatário desde 22 de junho
de 1995, através do Decreto nº 1.530.
Todos esses fatores
somados a um desprezo oficial (intencional?) vitimando a Sociedade de Arqueologia
Brasileira (SAB) – representante oficial da arqueologia nacional –, a qual
nunca foi consultada por nossas autoridades durante o trâmite desse projeto
de lei no Congresso Nacional, mostram a força de tal lobby que conseguiu
calar a voz de nossa própria Carta Magna, favorecendo uma minoria em detrimento
de uma maioria. Em nenhum momento nossos representantes eleitos levaram em
consideração que os sítios arqueológicos submersos ajudam a compor o Patrimônio
Cultural da Humanidade, e que ninguém tem o direito de explorá-los em benefício
próprio, como permitiram no texto da lei.
Esforços internacionais,
que têm como ápice a “Convenção da Unesco para a Proteção do Patrimônio Cultural
Subaquático”, adotada em Paris, em novembro de 2001, que dita as normas e
procedimentos para com esse patrimônio, busca fortalecer e ampliar no mundo,
com atenção especial aos países como o Brasil e Moçambique (vítimas do lobby político
da caça ao tesouro), essa área de atuação da ciência arqueológica, voltada à produção
do conhecimento.
 |
Logomarca da Convenção da Unesco para a Proteção do Patrimônio Cultural
Subaquático |
Dez anos de arqueologia
subaquática no Brasil
Preocupada com a preservação desses bens culturais
para as gerações futuras, a arqueologia subaquática inclui em suas atividades
não só a investigação sistemática in situ, mas também a proteção e
gestão do patrimônio cultural subaquático, através da confecção de inventários
do tipo Carta Arqueológica.
Com o intuito de reverter esta preocupante
situação de risco, que nos coloca na contramão do mundo, e promover a sustentabilidade
desse patrimônio, estão sendo desenvolvidos projetos e firmados diversos
protocolos de cooperação nacional e internacional envolvendo órgãos governamentais,
universidades, ONGs e empresas de diversos setores da iniciativa privada.
Mesmo assim, apesar dos problemas enfrentados,
completamos, neste ano de 2003, dez anos de luta oficial em prol do patrimônio
cultural subaquático no Brasil. Nesse período, ironicamente, o grande financiador
e incentivador da arqueologia subaquática foi o próprio Estado. Pois grande
parte do desenvolvimento dos pesquisadores e dos projetos, em nível de pós-graduação,
foi possível graças à Universidade de São Paulo (USP) e à Fapesp (Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ambas ligadas ao governo estadual.
O período em questão inicia-se em 1993, ano
em que Gilson Rambelli iniciou oficialmente, no Museu de Arqueologia e Etnologia
da Universidade de São Paulo (MAE-USP), seu mestrado: Arqueologia subaquática
e sua aplicação à arqueologia brasileira: o exemplo do baixo vale do Ribeira,
sob orientação da profa. dra. Maria Cristina Mineiro
Scatamacchia. Vale ressaltar que esse projeto contou com uma especialização
prévia do autor em arqueologia subaquática, na França, nos anos de 1992,
1994 e 1998. Também em 1993, foi organizada, na VII Reunião da SAB, uma mesa-redonda
composta por representantes da arqueologia brasileira e da Marinha do Brasil,
com o objetivo de discutir os problemas e as perspectivas da prática da arqueologia
subaquática no Brasil.
A escolha do tema da pesquisa de mestrado acima
citada, pioneiro na arqueologia brasileira, buscou iniciar o estudo sistemático
de sítios arqueológicos submersos, com o objetivo não só de provar aos arqueólogos
descrentes das possibilidades seguras de realizar pesquisas embaixo d’água
com a mesma seriedade que em superfície, como também servir de exemplo concreto
contra o forte discurso do lobby da caça ao tesouro, criando um debate
entre produção do conhecimento versus produção e comercialização de
coleções de artefatos.
A escolha dos sítios – um porto marítimo, Porto
Grande de Iguape; um sítio de contato interétnico indígena/europeu: Toca
do Bugio; e um sítio pré-histórico: Sambaqui do Prefeito –, rompeu com a
tradição nacional de considerar os sítios arqueológicos submersos sinônimos
de sítios de naufrágio e abriram um novo universo de pesquisa voltado à extensão
de sítios arqueológicos ao ambiente aquático, buscando a compreensão da dinâmica
cultural na interface terra-água, no processo de ocupação do litoral sul
de São Paulo (baixo vale do Ribeira).
Os resultados que obtivemos permitiram as primeiras
mudanças em prol da arqueologia realizada no ambiente aquático. Possibilitaram
ainda a realização de outros trabalhos na região, envolvendo diferentes épocas
e contextos, e assim, a partir do ano 2000, resolvemos incluir também em
nossas pesquisas o estudo das embarcações naufragadas.
Ainda em fins da década de 1990, foram iniciadas
mais duas pesquisas de mestrado no Museu de Arqueologia e Etnologia MAE-USP,
sob orientação de Scatamacchia: a de Paulo F. Bava
de Camargo, já encerrada, que tratou dos restos de
uma fortificação do século 19, atualmente submersa na barra
de Cananéia, SP; e a
de Flávio Rizzi Calippo, em fase final, que estuda os sambaquis
com bases submersas na Ilha do Cardoso/SP, resultantes de possíveis variações
do nível marinho.
E esse processo continua,
pois neste ano tivemos o ingresso de mais um aluno de doutorado, Leandro Duran,
com sua pesquisa voltada para o ambiente subaquático da Ilha do Bom Abrigo,
localizada em frente da barra de Cananéia, SP.
 |
Imagem de satélite da área de pesquisa em Cananéia |
 |
Arqueólogos identificando um sítio arqueológico pré-histórico submerso
(Foto: Fernando Andrade) |
 |
Restos de um sítio arqueológico de naufrágio e a qualidade da conservação
de artefatos orgânicos como a madeira e a corda (Foto: Francisco Alves,
CNAN/Portugal) |
Projetos e perspectivas
Hoje
podemos falar que o Brasil tem arqueologia subaquática! Temos uma equipe
de pesquisa especializada reconhecida internacionalmente, formada por novos
arqueólogos, por meio de cursos e de intercâmbios no exterior.
Outros aspectos que podemos ressaltar, além da formação
de novos profissionais, são os intercâmbios com o Instituto de Astronomia,
Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, para o desenvolvimento de equipamentos
como magnetômetros, por exemplo, e o início do difícil processo de educação
patrimonial e conscientização que estamos realizando com mergulhadores recreacionais
e com o público em geral, permitindo a participação dos interessados, devidamente
treinados em cursos específicos, nas etapas de campo de nosso trabalho.
Para esse trabalho de conscientização, contamos com o apoio
dos programas de capacitação em arqueologia subaquática desenvolvidos pela Nautical
Archaeology Society (NAS), ONG britânica, a qual representamos no Brasil,
e que conta com mais de20 anos de tradição na área de proteção do patrimônio
cultural subaquático.
Acreditamos que uma forma de modificarmos a Lei 10.166/00,
que protege a caça ao tesouro e que incentiva grandes escavações, é a confecção
de uma Carta Arqueológica detalhada, para conhecermos melhor o que temos
e assim podermos criar mecanismos de gestão e proteção desses sítios para
as gerações futuras. Essa é uma alternativa barata, que poderia contar com
o apoio da Marinha do Brasil, com maior apoio das universidades e que representa
a possibilidade de formação de mais profissionais, como também de integração
com os mergulhadores recreacionais.
Finalizando, apesar das condições de formação, pesquisa
e trabalho propiciadas pelo ambiente acadêmico, fez-se necessária a criação
de um centro de estudos independente da universidade, mais ágil, mas com
os mesmos preceitos da formação universitária. O Centro de Estudos de Arqueologia
Náutica e Subaquática (Ceans– www.arqueologiasubaquatica.org.br ),
uma entidade sem fins lucrativos, é uma iniciativa não governamental que
procura trabalhar tanto com a iniciativa privada, quanto com o governo, utilizando
todo o know-how adquirido nesses anos de trabalho. E, acima de tudo,
respeitando as leis brasileiras e os códigos internacionais, sem nunca se
valer do argumento de que a pesquisa sem exploração econômica não compensa.
 |
Cursos NAS de Introdução à arqueologia subaquática – Exercícios
de capacitação em piscina (Foto VCR - Cine Vídeo) |
 |
Cursos NAS de Introdução à arqueologia subaquática – Exercícios
de capacitação em piscina (Foto: Gilson Rambelli) |
 |
Campanha contra a caça ao tesouro e ao souvenir (Desenho
Merca) |
 |
Campanha de conscientização em prol do patrimônio cultural subaquático
(Foto: Raul Cerqueira e A.. C. Jacques) |
 |
Logomarca do Ceans – A embarcação a vela em questão corresponde
a uma pintura rupestre localizada em um sítio arqueológico pré-histórico,
no Seridó, no Rio Grande do Norte, estudado por Gabriela Martin. |
Para saber mais
Para quem quiser saber mais sobre o tema, pesquise o livro: Arqueologia
até debaixo d´água, de Gilson Rambelli, publicado pela Editora Maranta,
de São Paulo, em 2002.
 |
Capa do livro do Gilson Rambelli |
Para se aprofundar no tema ou para adquirir mais
informações sobre cursos e eventos, viste também o Ceans (www.arqueologiasubaquatica.org.br)!
Visite também os links do MAE-USP (www.mae.usp.br);
da NAS (www.nasportsmouth.org.uk); e da Unesco
(www.unesco.org)
Como aplicar esta matéria em sala de aula
Tendo como mote
que aprendizado pode ser divertido, o artigo “Arqueologia subaquática” mostra
caminhos para trabalharmos em sala de aula (mas também fora dela) noções de
patrimônio cultural e sua preservação; e como política e ciência imbricam-se
impossibilitando qualquer ambição de neutralidade.
O melhor de tudo isso: o tema da arqueologia
subaquática instiga a imaginação e remete-nos a histórias de piratas e navios
naufragados. A partir disso, o artigo desenvolve a importância do combate
à pirataria e indica meios para a preservação patrimonial.
Bom trabalho!