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Entrevista – Comunidad del Sur
Por João Paulo Hidalgo      Atualizado em 12/3/2004  

O último número do Zoom trouxe um artigo que abordava os movimentos antiglobalização e sua forma de mudar a maneira de nos situarmos em relação ao mundo em que vivemos. Entretanto, sempre que lemos algo sobre esse ou outros tipos de movimentos sociais, uma pergunta sempre vem à mente: como passar da teoria para a prática? Será possível vivermos de um modo diferente? Isso não é utopia, um sonho impossível de ser concretizado?

Para tentar responder a essas e outras indagações, o Zoom foi conversar com um grupo que conseguiu passar da consciência crítica para colocar em prática o que achavam que seria um modo alternativo de vida mais justo e igual: a Comunidad del Sur. Fundada em 1955 no Uruguai, a Comunidad passou por vários momentos turbulentos em sua história, mas até hoje continua seguindo seu caminho de uma das mais conhecidas experiências de vida alternativa e autogestionária.

Zoom – Como foi o início da Comunidad del Sur?

Comunidad del Sur – O projeto foi iniciado na década de 1950 por um grupo pequeno de estudantes da Escola de Belas Artes daqui de Montevidéu, num momento em que o Uruguai vivia uma crise socioeconômica bastante aguda. Nesse contexto de crise, muitas pessoas foram se juntando para sobreviver e mudar os rumos de suas vidas. Começaram a surgir muitas iniciativas autogestionárias, nas artes plásticas, no teatro, nas organizações de bairro, nas cooperativas de trabalho. Nesse momento nós tínhamos um grupo de discussão de escritos anarquistas, em que debatíamos idéias de Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Max Stirner, Martin Buber, Gustavo Landauer, Luce Fabbri. Pensamos, então, num modo de transformar nossas vidas pessoais, passando de uma crítica da sociedade capitalista à ação direta. Queríamos acabar com a injustiça, o desequilíbrio, a falsidade das relações e criar uma forma de vida alternativa, tanto no trabalho como na educação, no consumo, um cooperativismo integral. Não podíamos apenas ficar no espírito de consciência crítica, queríamos mudar, transformar as nossas vidas. Queríamos mostrar à humanidade o caminho para uma vida saudável e lúcida. A idealização dessa nova sociedade consumou-se, de certa forma, na fundação da Comunidad del Sur em 1955.

Tivemos que aprender a gerir uma empresa em termos econômicos e a organizar os vários aspectos da vida numa perspectiva libertária, que tinha em conta algumas experiências anteriores: a experiência das coletividades anarquistas da Revolução Espanhola e da Comunidade Cristiana, por exemplo.

Os primeiros estudantes que formaram a Comunidad del Sur em 1955

Zoom – Quais as pressões contra o projeto que vocês tiveram da sociedade de um modo geral?

Comunidad del Sur – Num primeiro momento, havia uma grande pressão da maioria dos pais para que seus filhos desistissem do projeto e continuassem suas vidas estudando, trabalhando e constituindo uma família. Mas o maior desafio enfrentado foi a própria dificuldade encontrada para uma mudança de vida e de valores. A maioria de nós havia sido educada sob os valores institucionalizados pelo sistema capitalista, seja através da família, da escola ou da universidade. Tínhamos que abandonar esses valores, questionando-os de todas as formas e propondo outros, como a solidariedade, em substituição a estes. Dessa forma, era também uma revolução interna em cada um dos integrantes. Questionávamos, por exemplo, o profissionalismo universitário: “Fazer Medicina? Para quê? Se o problema da saúde é própria estrutura social que faz com que a Medicina tenha uma aplicação socioeconômica. Fazer Arquitetura? Para quê?

Zoom – Quantas pessoas havia inicialmente?

Comunidad del Sur – Este medo de mudar completamente a forma de se viver fez com que, aos poucos, alguns integrantes do grupo se afastassem. No começo éramos muitos. Eram muitos os que questionavam a sociedade capitalista, principalmente no movimento estudantil. Conforme íamos tentando levar tudo isso à prática, o grupo foi se reduzindo. Ainda que houvesse uma consciência intelectual, nem toda a gente estava disposta a viver sem privilégios.

Zoom – Na prática, como funcionava a Comunidad em seu princípio?

Comunidad del Sur – Nós alugamos uma casa para estabelecer o experimento autogestionário no bairro Sur [nota dos editores: daí o nome Comunidad del Sur ], na parte velha de Montevidéu. Juntamente com a associação de moradores do bairro, desenvolvemos atividades que excitavam a população contra a situação de miséria em que viviam, ensinando às pessoas como era possível mudar suas vidas. Para a Comunidad, o vínculo com os moradores do bairro foi extremamente importante, uma vez que pudemos difundir nossas idéias diretamente à população, disseminando na região um espírito de cooperação coletiva.

Financeiramente, confeccionávamos artesanatos com cerâmica, além de alguns membros trabalharem como professores. Com o sucesso inicial da experiência, implantamos uma gráfica com o objetivo de difundir as idéias libertárias e garantir o sustento econômico do grupo. A produção concentrava-se em panfletos de manifestações de movimentos sociais, sindicais e estudantis; nunca trabalhamos com a imprensa capitalista como, por exemplo, em trabalhos comerciais.

Mas a localização da Comunidad na região urbana de Montevidéu nos levou a um novo tipo de questionamento: por que não romper com a separação campo-cidade? Mudamos então para um terreno semi-rural no subúrbio da cidade. O cultivo da terra transformou-se numa nova forma de se arrecadar dinheiro, mas a gráfica continuou sendo a mais importante atividade econômica. O desenvolvimento da agricultura nos possibilitou uma nova aprendizagem e passamos a adotar um regime rotativo de trabalho. De tempo em tempo todos se revezam em um determinado tipo de tarefa e cada um poderia aprender e se aperfeiçoar em diferentes aspectos do trabalho (administração, serviços e educação).

Zoom – E o papel da mulher no trabalho?

Comunidad del Sur – Com essa divisão do trabalho, rompemos, também, as tradicionais divisões sexuais no trabalho e a divisão entre trabalhadores e intelectuais. As mulheres deixavam de ser apenas “donas-de-casa” para adentrar no mercado de trabalho, seja na agricultura ou na gráfica. Em contrapartida, os homens também teriam que cuidar da casa e da criação das crianças.

Zoom – Como se administra a questão financeira na Comunidad?

Comunidad del Sur – O mais revolucionário na Comunidad, do ponto de vista econômico, é, sem dúvida, o estabelecimento de uma economia e da propriedade comuns. Tudo que se produz, o dinheiro e as coisas materiais são usufruto de todos. O trabalho é distribuído a partir da necessidade da pessoa e da capacidade física e psicológica que esta tem, sempre tendo em mente o desenvolvimento das habilidades e o conhecimento de novas aptidões. Nossa economia é um sistema que está relacionado com a prática de solidariedade e também com relações, entre as pessoas, comprometidas e erotizadas. O trabalho não tem que ser, apenas, uma maneira de ganhar a vida e sim uma realização da pessoa como pessoa. Queremos que o trabalho seja visto como algo prazeroso para a pessoa e não apenas um exercício mecanicista.

Zoom – Como é o anarquismo na Comunidad del Sur?

Comunidad del Sur – O anarquismo da Comunidad está baseado, fundamentalmente, na prática da autogestão em todos os meios da vida comunitária, em todos os níveis. A autogestão pode ser entendida tanto como meio para se transformar, como uma crítica à sociedade hierárquica e autoritária, como um “fim”, isto é, uma sociedade que realmente garanta a participação de cada um no processo das decisões referentes a sua própria vida, bem como às definições da vida comunitária.

A planificação autogestionária desejada é um programa coletivo ditado pela vontade política dos integrantes visando a um bem comum, sendo sempre proposta e não imposta, para que existam condições de igualdade e coletivismo. Todas as sextas-feiras, por exemplo, são feitas reuniões para resolver os problemas e estabelecer planos futuros.

Zoom – Após dezoito anos de sucesso da experiência, a vida da Comunidad sofreu uma reviravolta com o início da ditadura militar em 1973 e vocês foram obrigados a ir para o exílio. Conte-nos como isso aconteceu.

Comunidad del Sur – Na verdade a luta entre a criatividade autogestionária e as estruturas autoritárias capitalistas iniciou-se ainda nos anos 60. Em 1973 o golpe militar apenas solidificou o processo. A repressão após o golpe tornou-se insustentável para nós. Os militares invadiam a Comunidad para averiguar o que se passava, para saber quais as atividades. A gráfica foi fechada e as atividades da Comunidad foram quase que totalmente suspensas. Nesse momento a Comunidad já era bastante forte no país, principalmente a gráfica que produzia cerca de 40% de todos os livros publicados aqui.

Zoom – Os integrantes foram presos alguma vez?

Comunidad del Sur – No começo de 1975 lembro que detiveram todos os adultos da Comunidad del Sur deixando somente as crianças. Mas elas prosseguiram com a experiência reunindo-se todas as noites para tentar resolver os problemas, dividir as tarefas e buscar ajuda com alguns companheiros. Os militares não diziam onde os comuneros estavam. Então, era difícil porque não sabíamos o que teria acontecido ou o que poderia acontecer com eles. Íamos dormir e não sabíamos se íamos levantar. Íamos trabalhar de manhã e não sabíamos se voltaríamos. Era sempre uma situação de tensão. Cada vez que acontecia alguma coisa em Montevidéu, levavam-nos, investigavam-nos, prendiam-nos em busca de algo. Tínhamos muito medo. Decidimos que essa situação deveria terminar.

Zoom – Então caminharam para o exílio?

Comunidad del Sur – Primeiro fomos para o Peru. Entendíamos que devíamos continuar na América Latina, numa responsabilidade com os “pobres do mundo” e acreditávamos que a tradição indígena comunitária existente no país poderia ser um suporte importante para o estabelecimento da Comunidad por lá.

Mas logo depois houve o golpe militar peruano e a ditadura. A situação ficou tão ruim como era no Uruguai e não tivemos outra saída senão ir embora de novo. Restou-nos, como última hipótese, procurar um país que nos recebesse, e nesse momento a ajuda veio da Suécia.

Nós não tínhamos decidido ir para lá, mas também não foi o “destino” que o determinou: a Suécia precisava de imigrantes para o seu crescimento interno e por isso mostrava mais receptividade. Além disso, tivemos apoio da Anistia Internacional e do Sindicato Anarquista da Suécia que conseguiram recursos financeiros.

Zoom – Na Suécia reconstituíram a Comunidad com outras pessoas do Uruguai?

Comunidad del Sur – Fomos para Estocolmo como uma comunidade, o exílio nunca foi individual, embora acontecessem muitas mudanças em todo esse processo. Ao sairmos daqui muitas pessoas se separaram, ainda durante a repressão uns foram para a luta armada, outros se afastaram por medo. O exílio foi uma conseqüência da repressão, e em cada etapa, em Montevidéu, em Lima, em Estocolmo, se perdiam companheiros.

Zoom – Como foram os primeiros anos na Suécia?

Comunidad del Sur – O primeiro ano foi de profundas dificuldades, principalmente em relação à língua, à cultura, ao clima e ao desafio em conseguir trabalho. Mas aí conseguimos reestruturar a vida comunitária, fazendo as mesmas coisas de antes, o que sabíamos fazer era trabalhar em comum, organizar a vida em comum, fazíamos algumas das atividades típicas da Comunidad nessa época: artes gráficas, atividade sociais.

Procuramos vínculos com outras experiências revolucionárias, estabelecendo uma rede de comunicação entre diversos grupos europeus. Formamos um Centro de Comunidades onde se reuniam várias comunidades com o propósito de discutirmos problemas e projetos futuros. Fazíamos seminários, conversações, grupos de trabalho.

Tivemos também bastante apoio das organizações suecas, sobretudo do sindicato anarco-sindicalista, que nos ajudou permitindo-nos a utilização de uma pequena impressora. Foi com ela que começou a revista Comunidad, por exemplo. Nós tínhamos muitas relações internacionais e dava-nos muito trabalho escrever cartas a cada um. Fizemos o primeiro número, uma folhita com um gráfico, um desenho, não era uma carta muito ortodoxa mas era o que sabíamos fazer. Tivemos tantas respostas que no mês seguinte já fizemos oito páginas, e quando reparamos tínhamos uma revista, não foi coisa que decidíssemos, fez-se sozinha e lentamente foi ganhando importância.

A primeira edição da revista Comunidad e um número posterior: vendida em vários países nos anos 1970 e 1980, a revista transformou-se num veículo cultural que atuou como um meio para a transformação social desejada por eles

A idéia da revista era estabelecer um espaço cultural que mostrasse as tarefas e os projetos desenvolvidos pela experiência, bem como divulgar as novas perspectivas do movimento anarquista. A revista deveria ser radicalmente distinta. Aberta, comunicativa a todos os níveis, provocando a polêmica e o pensamento crítico em torno dos projetos de vida e criatividade.

Zoom – Ainda em Estocolmo vocês começaram a ter os primeiros contatos com o movimento ecológico. Como isso ocorreu?

Comunidad del Sur – Apesar de trabalhar a terra praticamente desde de o início da experiência, a Ecologia nunca havia sido pensada filosoficamente na Comunidad. Mesmo assim, o próprio estilo de vida adotado implicava um maior cuidado com a natureza e uma grande preocupação com o meio ambiente, bem como com os processos de produção agrícola.

Em Estocolmo tivemos a visita de Murray Bookchin e de outros companheiros do Instituto de Ecologia Social dos Estados Unidos, com quem organizamos conferências sobre Ecologia Social. Procuramos então a ver a ecologia não apenas como uma preocupação ambiental, mas sim como reflexos da estrutura social vigente. As raízes da crise ambiental que vive a sociedade atual não estão na tecnologia, na superpopulação ou no crescimento industrial somente, mas, na verdade, estão na prática de dominação e hierarquia entre os homens e entre estes e a natureza.

A saída para o problema está na criação de uma sociedade livre e ecológica baseada numa confederação de comunidades autogovernantes, isto é, através de uma democracia de assembléias populares.

Zoom – Em meados da década de 1980 vocês acabaram voltando ao Uruguai. Por quê?

Comunidad del Sur – Quando acabou a ditadura no Uruguai, em 1985, nós começamos a voltar para Montevidéu, resgatando nossas origens e continuando a desenvolver os projetos que começaram em Estocolmo. Fomos para Montevidéu à procura das raízes onde nos enxertarmos, a perspectiva era de uma comunidade em meio rural, pois parece que as cidades não são os ecossistemas adequados para uma vida humana rica e ainda menos participativa e libertária. Uma cidade grande só pode ser gerida autoritariamente, por um exército que nela ponha ordem, ou então por uma organização entre bairros. Queríamos algo novo, enriquecedor. Compramos uma chácara de 13 hectares no quilômetro 16 do “Camino Maldonado” onde estabelecemos a Eco-Comunidad.

Vista geral dos dormitórios da Eco-Comunidad

 

A volta começou a ser feita em 1985, quando comemorávamos 30 anos da Comunidad. Realizamos as primeiras atividades, conversas e debates, geralmente na universidade, sobre vários temas, autogestão, ecologia, feminismo, e assim começou-se a formar um novo núcleo de gente que funcionou também como apoio para os que voltavam da Suécia.

Entre 85 e 87 foi-se formando o grupo e finalmente trouxemos as máquinas que estavam na Suécia e instalamos de novo a gráfica, num local a que chamamos Casencuentro, onde funcionam oficinas de cerâmica, de música etc. Esse espaço no centro da cidade significava também o desejo de evitar o isolamento do resto da sociedade

Zoom – Quais sãos as áreas atualmente em funcionamento?

Comunidad del Sur – Temos a gráfica, os serviços comuns, de educação e outros, a editora, as atividades produtivas. É preciso ver que uma coisa é a autonomia e outra a independência, temos estruturas integradas em que cada setor é autônomo mas não independente, a responsabilidade social é partilhada por todos.

Isso decorre de um conceito básico, o de que a comunidade gira à volta de uma idéia central que é a da paternidade partilhada. Nós somos responsáveis pela reprodução cultural que se dá à volta dos nossos filhos; a idéia de paternidade partilhada não se refere só aos planos biológicos ou interpessoais, também somos pais, ou criadores, desta concepção de vida, das atividades desenvolvidas nos vários sectores etc. Daí a força da participação: cada um participa porque faz parte, e faz parte como criador, não apenas como ator numa obra. É a isto que chamamos paternidade partilhada.

Zoom – Como é a educação das crianças na Comunidad?

Comunidad del Sur – O que educa é o mundo. Um mundo que espera e recebe os novos seres – novos por nascimento, ou por vontade de adquirir novos valores, novos saberes, uma nova vida – e que, sem poder político, elimina a possibilidade de dominação na medida em que se recria permanentemente o modo de vida. Quando o ser humano nasce ele é lançado a este mundo sem seu conhecimento, consentimento, nem vontade. No entanto, ele está dotado de razão e imaginação; por isso, não pode contentar-se com seu papel passivo de criatura. Sente-se obrigado a transcender sua passividade, fazendo-se criador, única forma de vincular-se com o mundo. É no momento de seu nascimento que a criança depende da sociedade que a envolve, de como esta está constituída e o que ela lhe tem para oferecer. Esta sociedade é uma “matriz social”, o alimento dessa criança.

Pensamos que a Comunidad pode ser essa “matriz social” – pautada pela autogestão, pela solidariedade e pelo comunismo, sem dominação, autoritarismo ou competição – que ofereça a este novo integrante uma sociedade onde ele consiga desenvolver toda sua criatividade e sua potencialidade, transformando-o de um elemento passivo para um agente criador de sua vida.

Uma das questões fundamentais é a aprendizagem da autogestão, as crianças têm um local que é delas, a guarida, e é aí, na passagem do pré-escolar para o escolar, que as crianças têm o seu próprio local e a sua vida, convivem na sua própria casa, não na dos seus pais, embora estes estejam mais próximos do que na maior parte das casas da cidade, e têm tudo em comum. Depois, a partir da adolescência, passam a ter o seu próprio quarto, mas com autonomia e co-responsabilidades crescentes.

Zoom – Na atividade agrícola o que fazem?

Comunidad del Sur – A idéia é garantir principalmente o sustento interno do grupo, mas também uma componente de estudo e experimentação de uma agricultura orgânica e alternativa, com recurso à energia solar etc. Temos ligações com escolas agrícolas, que vêm passar dias conosco, também como alternativa à educação convencional.

O trabalho agrícola na Comunidad: forma de sustento e fonte de pesquisa em agricultura orgânica

Zoom – Existe uma rotatividade muito grande de integrantes na Comunidad? Como se dá o processo de entrada e saída de uma pessoa do projeto?

Comunidad del Sur – Em relação às entradas e saídas, isso origina dificuldades, porque o processo de integração não consiste apenas em integrar no funcionamento comunitário, porque as pessoas que chegam vêm carregadas com a sua história, os seus modelos, os seus preconceitos, modificando permanentemente a totalidade que encontram, visto sermos um grupo aberto. Isto também nunca está totalmente resolvido, porque ou há uma grande invasão ou temos tendência para nos mostrarmos muito defensivos. Mesmo assim, a Comunidad está sempre aberta, recebendo muitos visitantes, dos mais variados países, que sempre nos procuram para aprender mais sobre a agricultura orgânica produzida aqui ou sobre o projeto comunitário em geral.

Zoom – Quais são os próximos projetos da Comunidad del Sur?

Comunidad del Sur – Queremos fazer da Comunidad um centro de estudo e difusão, ainda não estão aproveitadas todas as suas potencialidades, por exemplo, para o ecoturismo, um turismo mais responsável, não tradicional.

Estamos iniciando a comercialização de produtos orgânicos, ecológicos, em conjunto com outros produtores. Há também o trabalho militante, numa pequena organização, o ecobairro, organizando formas autogestionárias de luta numa zona como esta em que estamos, pobre, marginal, com problemas de todo o gênero, desemprego.

Estamos tentando criar uma espécie de federação, um grupo específico no âmbito do municipalismo libertário participativo, para atuar em áreas como a saúde, a educação, a habitação, os tempos livres.

Temos a impressão de que nessas circunstâncias muito críticas as soluções autogestionárias começam a ser uma necessidade, ainda mesmo quando, e paradoxalmente, as pessoas não estejam preparadas para isso e sejam muito individualistas, incluindo os mais pobres. No entanto, ou aparecem soluções autogestionárias, de tipo cooperativo, ou a crise vai ser muito mais dura.

Como aplicar esta matéria em sala de aula

A última edição do Zoom trouxe um artigo a respeito dos movimentos antiglobalização. A postura crítica dos novos movimentos sociais é sempre interessante de ser trabalhada em sala de aula. Entretanto, os alunos quase sempre se perguntam qual a praticidade de tais críticas, como realmente podemos mudar o mundo ou as nossas vidas.

Na “Entrevista” deste primeiro número de 2004, fomos ao Uruguai entrevistar um dos principais grupos libertários e comunitários que conseguiram estabelecer a ponte entre a postura crítica e a prática. Ao entender e analisar as possibilidades de um modo de vida alternativo, os alunos podem estabelecer melhor as conexões com o mundo em que vivem, bem como tentar modificar as estruturas sócio-político-econômicas de sua sociedade. 




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