“A vida não seria possível sem o
açúcar!” Esta frase, mesmo para o maior entusiasta consumidor de guloseimas,
parece um tanto exagerada, não achas? Mas, em uma interpretação literal da
frase, considerando também que a ‘espinha dorsal’ de nosso DNA é constituída
por moléculas de açúcar, realmente a vida, da forma como a conhecemos, não
seria possível sem ele.
O último artigo da série “Química
na Cozinha” não poderia deixar de ter como tema o açúcar, fato que é quase uma
analogia que faz referência à tradição de servir a sobremesa, geralmente de
sabor doce, ao final das refeições. O açúcar, da mesma forma que a cebola e
o sal,
temas das edições anteriores desta série aqui no Zoom, está presente de
maneira marcante na cozinha. Usamos muito de suas propriedades, mas,
geralmente, desconhecemos porque e como elas atuam em nossas receitas e em nosso corpo. Sem falar que nem sempre tudo que é doce é açúcar, pois, nos últimos anos, o uso
de adoçantes dietéticos artificiais e naturais teve um crescimento assustador,
tanto para fins medicinais como estéticos.
Quais são as vantagens e
desvantagens dos adoçantes artificiais e naturais? Qual o açúcar mais indicado:
mascavo ou refinado? O que acontece com o açúcar na caramelização? Essas e
outras perguntas serão discutidas e respondidas, mesmo que parcialmente, nesse
artigo que pretende encerrar a série “Química na Cozinha” mostrando quais são
as particularidades dessa especiaria que, há séculos, vem “adoçando as nossas
vidas. Os capítulos foram produzidos independentes uns dos outros, de tal forma
que eles podem ser lidos em qualquer ordem sem prejudicar com isso o seu
entendimento. Portanto, leia somente o(s) que lhe interessar. Vamos logo
saborear a sobremesa! Com vocês, o açúcar! Boa leitura!
Um pouco de história...
A cana-de-açúcar (Saccharum L. e seus híbridos[1])
é, talvez, o único produto de origem agrícola destinado à alimentação que, ao
longo dos séculos, foi alvo de disputas e conquistas, mobilizando pessoas e
nações. Não se sabe bem ao certo de onde ela veio, mas a maioria das
referências históricas indica que teriam sido os povos das ilhas do sul do
Pacífico, há mais de vinte mil anos, que descobriram as propriedades desta
planta, a qual crescia espontaneamente nas suas terras.
Foi na atual Nova Guiné em que se
supõe que ela tenha sido cultivada pela primeira vez. Teriam sido os indianos o
primeiro povo a extrair o “suco da cana” e a produzir, pela primeira vez, o
“açúcar bruto”, por volta do ano quinhentos antes de Cristo. Não é por acaso
que seu nome é originário do sânscrito çarkara, que significa “grão” e
do qual vai derivar o nosso “açúcar”, sukkar para os árabes, saccharum em latim, zucchero em italiano, seker para os turcos, zucker para os alemães, sugar em inglês, sucre em francês e azúcar em espanhol.
O desembarque da cana-de-açúcar
na Europa Oriental aconteceu no século IV a.C., fruto das viagens e conquistas
de Alexandre Magno, desde a Macedônia até a Ásia. Dos gregos, o Império Romano
herdou aquele a que chamavam de “sal indiano”, muito apreciado pelas suas
propriedades gastronômicas e medicinais. Mas foram os árabes os responsáveis
pelo início da produção de açúcar sólido ao longo do mediterrâneo, arte
aprendida com os persas. No século VII, a cultura do açúcar chegava, assim, ao
Chipre, a Creta, a Rodes e a todo o Norte de África, embora com uma adaptação
ao solo e ao clima variável. No século XII, as tentativas de cultivo
estenderam-se às regiões da Grécia, do Sul de Itália e França, mas a produção
continuou a ser muita reduzida. Por isso, o açúcar permanecia um produto
medicinal e de luxo, vendido nos boticários, ao alcance de poucos.
Nessa altura, eram os mercadores
venezianos os principais intermediários desse comércio: compravam o açúcar na
Índia e vendiam-no a quem podia pagar por esta raridade gastronômica. Paralelamente,
a descoberta do “Novo Mundo” inseriu a última mudança na história da introdução
do açúcar em nossas mesas. Por sorte, o navegador Cristóvão Colombo possuía uma
plantação de cana-de-açúcar e, antes de se casar, trabalhava transportando
açúcar para a cidade de Gênova, na Itália, proveniente das plantações de cana
na Ilha da Madeira. Isso tudo, provavelmente, fez com que ele tivesse a idéia
de levar um pouco de cana-de-açúcar para o Caribe, em sua segunda viagem ao
“Novo Mundo” no ano de 1493.
No novo continente, a cana
encontrou excelentes condições para se desenvolver e não foram precisos muitos
anos para que, em praticamente todos os países recém-colonizados, os campos se
enchessem de cana-de-açúcar. Seguiu-se uma época de grande prosperidade para a
cultura e comercialização deste produto, protagonizada por portugueses e
espanhóis, com especial destaque para as plantações aqui no Brasil. A cobiçada
especiaria ganhou mesmo honras de metal precioso. Chamavam-lhe de “o ouro
branco”, tal era a fortuna que gerava.
A exploração dos escravos, que se praticou desde
o século XVI até princípios do século XIX, viabilizou a expansão da indústria
do açúcar de uma forma irreversível, com plantações praticamente em todo o
mundo, desde as Índias Ocidentais às Américas. Mais popularizado,
principalmente para adoçar as novas bebidas, também de origem “exótica” como
café e chá, o açúcar conhece um maior consumo, embora ainda mais presente no
círculo restrito das classes abastadas. Para conferir um mapa que resume a
história do açúcar, clique aqui.
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Figura 1 – A produção mundial de
açúcar em 2004/2005 é estimada em 144 milhões de toneladas, sendo que 75%
atrelada aos dez maiores países produtores. Fonte: Illovo
Sugar |
Hoje, o maior produtor de açúcar
é o Brasil, seguido pela União Européia (EU – European Union), Índia e China,
conforme podemos visualizar na Figura 1. O açúcar tornou-se um alimento comum à
dieta de todos os países, constituindo uma fonte de energia de fácil e rápida
assimilação. Além disso, o sabor doce é um dos mais apreciados pelo ser humano,
o que torna o açúcar um dos alimentos capazes de oferecer momentos de bem-estar
e prazer. No próximo capítulo, conheceremos um pouco mais sobre a intimidade
(em nível molecular) desse composto.
[1] As variedades atuais de cana-de-açúcar são originadas de espécies e híbridos do
gênero Saccharum L.
Sacarose: o que é e qual sua constituição?
Para uma rápida
demanda de energia, nada se iguala ao açúcar. Mas, você sabia que o papel e o
algodão são feitos de “açúcar”? Antes que você tente provar qualquer um dos
dois exemplos citados, já adianto que eles não são doces porque as unidades de
açúcar estão ligadas em uma estrutura polimérica chamada “celulose”. Açúcares e
“correntes de açúcares” são chamadas genericamente carboidratos[2], hidratos de carbono ou
glicídios. Vamos estudá-los? Afinal, nós os comemos, usamos e escrevemos neles
todos os dias!
Creio que cabe
aqui, neste ponto do artigo, um esclarecimento e discernimento entre as
nomenclaturas popular, científica e a adotada nesse artigo. Da mesma forma que
o sal, tema anterior dessa série sobre a química na cozinha, a palavra açúcar,
em sua acepção popular, tem um sentido diferente do utilizado no meio
científico. Nos domínios populares, quando se fala em açúcar, refere-se
especificamente à sacarose, muito presente na cozinha como condimento essencial
em muitas receitas. Já, nos meios científicos, ao nos referirmos aos açúcares,
estamos indicando uma quantidade relativamente grande de compostos além da
sacarose, como, por exemplo, os mono, di e polissacarídeos. Para evitar
duplicidade de sentidos, mesmo se tratando de um artigo com caráter
predominantemente científico, quando for citado o termo “açúcar” neste artigo,
estarei me referindo à sacarose.
[2] Conforme oportuna observação do professor Dr.
Édson Minatti em seu artigo sobre os adoçantes artificiais e
naturais, os dicionários da língua portuguesa escrevem “carboidrato” sem
‘h’. Mesmo concordando com o autor citado que a forma mais adequada seria
“carbohidrato” com ‘h’, pois este último denota a presença de um composto químico - a água - , seguiremos com a forma oficial de referência à palavra indicada nos dicionários. Mas, sem dúvida, esta e outras
“traduções/adaptações” que são feitas para a língua portuguesa mereceriam um
artigo à parte.
Açúcar é vida!
As pessoas têm
usado materiais para armazenar informação desde o tempo das pinturas em
cavernas. Hoje podemos especular sobre a possibilidade de armazenar informação em moléculas únicas. Um sonho dos projetistas de computadores é que um dia arranjos de tais
moléculas servirão como dispositivos de armazenamento de dados de enorme
capacidade. A natureza, no entanto, já tem usado essa técnica por milhões de
anos. Ela usa a molécula chamada de ácido desoxirribonucléico (DNA) para
armazenar a informação genética que permite aos seres vivos se reproduzirem.
Haveria DNA sem
açúcar? Moléculas de açúcar alternadas com grupos fosfato formam a “espinha dorsal”
do ácido desoxirribonucléico, macromolécula que armazena as informações
hereditárias (veja Figura 2). Retirando-se os açúcares, nós não teríamos DNA e
sem a informação associada a ele, não haveria vida, pelo menos da forma como a
concebemos hoje.
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Figura 2 – A presença de moléculas de
açúcar no DNA e RNA |
Os carboidratos
estão intimamente ligados ao ciclo de vida dos animais e vegetais. Nestes
últimos, açúcares são produzidos através de várias reações que, em conjunto,
compõem o fenômeno da fotossíntese. As seqüências de reações representadas
abaixo “fecham” o ciclo fundamental de energia nos seres vivos: os vegetais,
com auxílio da energia solar, fabricam seus nutrientes que, a seguir, são
consumidos pelos animais para obtenção da energia necessária aos seus processos
vitais.
Não é objetivo aqui
se fazer uma análise aprofundada da fotossíntese, pois se trata de um fenômeno
deveras complexo e que não está diretamente ligado ao escopo deste artigo, mas,
se você quiser saber mais sobre o assunto, sugiro a visualização das seguintes
animações disponíveis na Internet:
http://www.catie.org.uk/images/Plant_Life_Rev01_04.swf
http://ilo.ecb.org/SourceFiles/photosynthesis.swf
É comum separar o
fenômeno da fotossíntese vegetal em duas fases: a clara e a escura, sendo que a
fase clara teria a luz solar para sintetizar ATP[3] e formar NADPH[4] na membrana tilacóide, e a fase escura, na qual o ATP e o NADPH produzidos na
fase clara são utilizados para a fixação de CO2(g), o que ocorre no
estroma[5] do cloroplasto[6].
Falando especificamente na fase “escura” de fotossíntese, há a formação de
sacarose através da reação indicada na Figura 3.
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Figura 3 – Síntese da sacarose em uma
etapa da fotossíntese |
Essa sacarose formada, por sua
vez, poderá ser convertida finalmente em amido, um tipo de carboidrato que tem
como função ser uma fonte energética de reserva nas plantas, com função
semelhante ao glicogênio[7] nos seres humanos, ou então em celulose, a qual servirá para formar as
estruturas da planta, como o caule e as folhas, por exemplo.
[3] ATP é a sigla para adenosine triphosphate (trifosfato de adenosina), molécula
na qual se encontram as ligações fosfato, altamente energéticas, responsáveis
pelo fornecimento de energia para a manutenção das células e mecanismos
metabólicos em geral.
[4] Sigla para o composto nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato, forma
reduzida. Uma das principais fontes de energia para reações anabólicas (reações
relacionadas às queimas respiratórias intracelulares).
[5] O estroma é uma região aquosa que circunda as tilacóides. Para maiores
informações, clique aqui.
[6] Segundo Bayardo B. Torres e Rodrigo V. M. da Silveira, em seu software
sobre a fotossíntese, a classificação da fotossíntese em fase “clara” e
“escura” é equivocada, visto que a fase dita “escura” necessita também de luz
solar para ocorrer.
[7] O glicogênio é um polímero de a-glicose
(podendo ter mais de 3000 unidades de glicose) muito ramificado, encontrado no
fígado dos animais. O organismo produz e guarda glicogênio para ser uma fonte
energética de reserva, podendo ser desmembrado novamente em sua constituinte se
assim for necessário.
Como sentimos o sabor doce?
A sensação do sabor é resultado de
um sistema sensorial dedicado primeiramente a verificar a qualidade do alimento
que será ingerido. Embora ajudado pelas análises do olfato e da visão, o
reconhecimento final se dá nas interações que certos grupamentos das moléculas
dos alimentos vão ter com receptores exclusivos para cada gosto, os quais estão
presentes, de forma predominante, em nossa língua. Nós humanos reconhecemos cinco tipos
de gostos: ácido, amargo, doce, salgado e umami[8].
Um ser humano normal consegue
detectar a presença de cerca de 6,85 g de açúcar dissolvidos em 200 mL de água.
Pesquisadores da Embrapa, em parceria com a Escola Politécnica da USP,
desenvolveram uma língua
eletrônica que consegue detectar 0,3 g de açúcar dissolvido em 200 mL de água. A língua eletrônica consiste em um conjunto de unidades sensoriais que
devem ser mergulhadas no líquido analisado. Essas unidades são eletrodos
metálicos recobertos por uma finíssima camada de diversos polímeros
“inteligentes”, os quais são sensíveis às substâncias presentes na solução.
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Figura 4 – Esquema geral explicando o sentido
do paladar. |
O sabor doce ocorre em resposta à presença de
carboidratos solúveis em concentrações suficientes na cavidade oral. Contudo,
existe uma diversidade relativamente grande de moléculas que não são
carboidratos, mas também apresentam sabor doce. Para felicidade das pessoas que
não podem ingerir açúcar devido a problemas relacionados com determinadas
patologias, como é o caso do diabetes, surgem os adoçantes dietéticos, os quais
merecerão um capítulo especial neste artigo.
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Animação 1 – Regiões da língua especializadas
nos quatro principais sabores |
Verifica-se que algumas áreas da língua são especializadas em
um determinado sabor em detrimento parcial dos outros. As sensações de doce (sweet)
e salgado (salty) estão localizadas, principalmente, na ponta da língua,
a sensação de azedo (sour) nas porções laterais e a de amargo (bitter)
sobre a região posterior (veja Animação 1). Contudo, sabe-se que mesmo regiões
especializadas no sabor doce, por exemplo, também são sensíveis, em menor grau,
em relação aos quatro outros gostos.
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Figura 5 – Mecanismos para as
sensações dos sabores (a esq. para a dir.): umami, doce e amargo. Fonte: Basic Neurochemistry. |
Mas, como o açúcar e os adoçantes
dietéticos proporcionam o prazer do gosto doce? É possível explicar essa sensação através do esquema representado na Figura 5. Como se pode notar, existem várias etapas, desde a estimulação da proteína AC (Adenylate Cyclase) até a elevação da concentração de cAMC (cyclic adenosine monophosphate), o que causa uma inibição dos canais de potássio que, por sua vez, geram uma despolarização da célula.
Evidentemente que não é objetivo deste trabalho
explicar como se dá a sensação de doce em sua plenitude, pois, como já pode ser
visto através do esquema representado na Figura 5, não se trata de um fenômeno
simples, mas de um emaranhado de interações e reações bioquímicas, as quais
foram elucidadas, mesmo que parcialmente, nas últimas décadas.
[8] O umami é o sabor característico de certos aminoácidos (e.g., glutamato,
aspartato, entre outros) que não pode ser reproduzido por qualquer outra
combinação dos outros quatro sabores: doce, amargo, azedo e salgado.
Afinal, o que é a sacarose?
Os carboidratos são compostos de função
mista, poliálcool-aldeído ou poliálcool-cetona, ou qualquer outro que, ao
sofrer hidrólise, se transforme num composto deste tipo. São constituídos de
carbono, oxigênio e hidrogênio, exclusivamente, combinados de acordo com a
fórmula [Cx(H2O)y], em que x e y
são números inteiros. Por exemplo: a molécula de sacarose teria uma fórmula
correspondente a C12(H2O)11 ou, na
configuração de fórmula molecular, C12H22O11.
Seu nome oficial[9] é a-D-glucopyranosyl-b-D-fructofranoside.
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Figura 6 – Síntese da sacarose a partir de
seus constituintes: a-glicose e frutose |
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Olhando a sua
fórmula geral, fica fácil saber por que esses compostos são conhecidos pelo
nome “hidratos de carbono”. Eles podem formar estruturas simples, como
os mono e dissacarídeos, até estruturas grandes e complexas, como os
polissacarídeos. A sacarose é um carboidrato do tipo dissacarídeo, formado
pela união de dois monossacarídeos: a-glicose e a frutose. A fórmula estrutural da
sacarose e dos monossacarídeos que a constituem podem ser visualizadas na Figura
6. Outros exemplos de dissacarídeos importantes são a maltose (açúcar do
malte) e a lactose (açúcar do leite), sendo que este último só é encontrado
em mamíferos.
Um comentário
adicional se faz importante com relação ao açúcar do leite. Nas crianças, a
lactose é hidrolisada pela enzima intestinal b-D-galactosidase (ou também
conhecida pelo nome “lactase”) aos seus componentes monossacarídicos para
absorção na corrente sanguínea. A galactose é enzimaticamente convertida em
glicose, que é o principal combustível de muitos tecidos.
Uma vez que é
improvável os mamíferos encontrarem lactose após terem sido desmamados, a
maioria dos adultos possui baixos níveis de b-galactosidase.
Conseqüentemente, boa parte da lactose que eles ingerem atravessa o trato
digestivo até o cólon, onde a fermentação bacteriana produz grandes quantidades
de CO2(g), H2(g) e agentes orgânicos irritantes. Esses
produtos causam dores digestivas conhecidas como intolerância à lactose.
Essa doença, que já
foi considerada um distúrbio metabólico é, na realidade, bastante comum em
seres humanos adultos, em particular de descendência africana ou asiática.
Curiosamente, entretanto, os níveis de b-galactosidase diminuem apenas de forma amena com
a idade em descendentes de populações que, historicamente, consomem uma base de
produtos laticínios na dieta durante toda a vida. A tecnologia de alimentos
moderna tem auxiliado os adultos apreciadores de leite com intolerância à
lactose: encontra-se disponível um tipo de leite em que a lactose foi
previamente hidrolisada de modo enzimático.
Embora esses tipos
de carboidratos (mono, di e polissacarídeos) sejam tão diferentes entre si em
termos de estrutura molecular, todos eles fornecem a mesma quantidade de
energia para o nosso metabolismo: cerca de 4 kcal/g. No final das contas, todos
são fundamentalmente glicose. Esta, por sua vez, entrará em rotas metabólicas a
fim de produzir moléculas de ATP, iguais às formadas no fenômeno da
fotossíntese, as quais serão utilizadas para fornecer energia aos processos
celulares, promovendo a sua manutenção.
Para fechar com
chave de ouro este capítulo, vamos imaginar uma experiência (e por que não, com
muito cuidado, reproduzi-la em laboratório?). Uma das características
marcantes do ácido sulfúrico (em especial o concentrado) é o seu grande caráter
higroscópico (afinidade por água). Devido a isso, há uma experiência clássica a
qual mostra que a matéria orgânica é composta por carbono e que revela a
constituição dos carboidratos. A experiência consiste em adicionar ácido
sulfúrico concentrado ao açúcar, de preferência o tipo “cristal”. Após mexer a
mistura, ocorrerá uma reação bastante característica, na qual haverá a
desidratação do açúcar, reação que pode ser equacionada conforme mostra a Figura
7.
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Figura 7 – Equação que mostra a
desidratação do açúcar pela ação higroscópica do ácido sulfúrico concentrado e
evidencia a constituição dos carboidratos. |
Como se pode ver,
ao final da reação, obtém-se carbono sólido, o qual pode ser claramente
identificado pela formação de uma estrutura volumosa de cor negra que sai do
local onde havia antes a mistura de ácido sulfúrico e açúcar. As imagens bem como
o vídeo da reação química descrita acima podem ser vistos através do módulo Chemistry Come Alive do Journal of Chemical Education
Online.
No açúcar de
cozinha há somente sacarose? Rigorosamente falando, não. No açúcar comercial,
há sempre uma pequena porcentagem de “impurezas” (predominantemente sais
minerais e aminoácidos) que resistiram as várias etapas de refino. Para eliminar
justamente essas “impurezas” é que essas etapas são realizadas. Contudo,
podemos considerar o açúcar, para efeitos práticos, como sendo constituído apenas
por sacarose, visto que as “impurezas” não possuem nenhuma aplicabilidade, pelo
menos nas concentrações que são encontradas no açúcar refinado, por exemplo, o
qual é 99,8% puro. No próximo capítulo, você saberá mais sobre esse
carboidrato, do tipo dissacarídeo, o qual entrará em ação em um dos cômodos
mais “queridos” das nossas residências: a cozinha.
[9] A IUPAC (International
Union of Pure and Applied Chemistry) é quem define, dentre outras coisas,
as regras para a nomenclatura oficial dos compostos. Para maiores informações
sobre a IUPAC, clique
aqui.
O açúcar na cozinha: Tipos de açúcar

|
Estudos apontam que os nossos
ancestrais consumiam dietas que tinham cerca de 4 - 6% de açúcar, medido como
porcentagem de energia, principalmente sob a forma de frutas e ocasionalmente
de mel. Os seres humanos evoluíram tendo uma aceitação intensa ao sabor doce,
provavelmente porque, na natureza, a doçura indica que as frutas já estão
maduras e prontas para serem consumidas. Esse fato certamente influenciou
nosso paladar hoje no que diz respeito à aceitação (muitas vezes “adoração”)
pelo doce.
Abaixo, segue uma relação resumida
dos tipos de açúcares disponíveis no mercado para o consumidor e utilizados
na indústria com suas principais características. |
O açúcar de
confeiteiro, também conhecido como glaçúcar, tem cristais tão finos que
mais parecem com talco de bebê. Recomendado para fazer glacês e coberturas, seu
segredo é um refinamento sofisticado, que inclui uma peneiragem para se obter
minicristais, além da adição de amido de arroz, milho ou fosfato de cálcio,
cerca de 30% em peso para evitar que os minicristais se juntem novamente, ou
seja, inibir que o efeito higroscópico do açúcar faça com que o mesmo embolore.
O açúcar
orgânico é diferente de todos os outros tipos porque não utiliza
ingredientes artificiais em nenhuma etapa do ciclo de produção, do plantio à
industrialização. O açúcar orgânico é mais caro, mais grosso e mais escuro que
o refinado, mas tem o mesmo poder adoçante, pois se trata quase exclusivamente de
sacarose. Muito apreciado por europeus e norte-americanos, cada vez mais
preocupados com a sustentabilidade ambiental, este açúcar é considerado natural
desde o plantio, sem adubos e fertilizantes químicos, até a embalagem
biodegradável, passando, claro, pela produção industrial sem cal, enxofre,
ácido fosfórico e tantos outros elementos adicionados ao produto refinado. A
palavra de ordem dos novos plantadores é a preservação da natureza. Mas a
produção e o mercado consumidor ainda são irrisórios. Por ano, são produzidos
125 milhões de toneladas de açúcar no mundo, mas desse total, apenas de 40 a 50 mil toneladas são do tipo orgânico, o que significa 0,036 % de todo o açúcar produzido.
O açúcar
light surge da combinação (mistura) do açúcar refinado com adoçantes
dietéticos, como o aspartame, o ciclamato e a sacarina, os quais quadruplicam o
poder de adoçar do açúcar puro. Um cafezinho só precisa de dois gramas de
açúcar light para ficar doce, contra seis gramas de açúcar comum. Por
isso, quem consome açúcar light ingere menos calorias com relação à
sacarose pura.
O açúcar
líquido é obtido pela dissolução do açúcar refinado em água. Usado em
bebidas gasosas, balas e doces, o açúcar líquido não é vendido em
supermercados. Uma das vantagens é que ele não precisa ser estocado em sacos,
diminuindo os riscos de contaminação com poeira ou microrganismos, aumentando a
praticidade do uso, principalmente na indústria de alimentos.
A frutose é o açúcar extraído das frutas e do milho. Sem precisar de nenhum aditivo, a
frutose é cerca de 30% mais doce que o açúcar comum, mas ela engorda sem
oferecer uma vitaminazinha sequer. A maior parte da frutose vendida no Brasil é
importada e tem preços meio amargos. Vale lembrar que a frutose é um dos
monossacarídeos que formam a sacarose e que o mel é constituído por mais de 40%
em peso de frutose. Veremos mais adiante quais são os prós e contras o uso
deste açúcar em dietas para fins medicinais ou estéticos.
O açúcar
refinado, também conhecido como açúcar branco, é o açúcar mais comum
nos supermercados. No refinamento, aditivos químicos, como o enxofre, tornam o
produto branco e delicioso. O lado ruim, segundo a maioria dos nutricionistas,
é que este processo retira vitaminas e sais minerais, deixando apenas as
"calorias vazias" (sem nutrientes), permanecendo cerca de 99,8% de
sacarose.
O açúcar
mascavo é o açúcar quase bruto, escuro e úmido, extraído depois do
cozimento do caldo de cana. Como o açúcar mascavo não passa pelas etapas
seguintes de refinamento, ele conserva o cálcio, o ferro e outros sais
minerais. Mas seu gosto, bem parecido com o do caldo de cana, desagrada a algumas
pessoas. O grau de pureza de sacarose neste açúcar gira em torno de 90% e é
muito recomendado por nutricionistas, devido ao fato de não ser um produto
altamente concentrado e de preço acessível, além de possuir mais nutrientes.
Há, no entanto, autores que afirmam que esses nutrientes presentes no açúcar
mascavo somam valores muito pequenos e que quantidades nada saudáveis de açúcar
mascavo deveriam ser consumidas para suprir as necessidades diárias de
nutrientes em nosso organismo.
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Refinado |
Mascavo
e demerara |
Orgânico |
Frutose |
| Energia |
387
kcal |
376
kcal |
399
kcal |
400 kcal |
| Carboidratos |
99,90 g |
97,30 g |
99,3 g |
n/d |
| Vitamina B1 |
0 mg |
0,010 mg |
n/d |
n/d |
| Vitamina B2 |
0,020 mg |
0,010 mg |
n/d |
n/d |
| Vitamina B6 |
0 mg |
0,030 mg |
n/d |
n/d |
| Cálcio |
1,0 mg |
85 mg |
n/d |
n/d |
| Magnésio |
0 mg |
29 mg |
n/d |
n/d |
| Cobre |
0,040 mg |
0,300 mg |
n/d |
n/d |
| Fósforo |
2 mg |
22 mg |
n/d |
n/d |
| Potássio |
2 mg |
346 mg |
n/d |
n/d |
| Proteína |
n/d |
n/d |
0,5% |
n/d |
|
Tabela 1 – Comparação das composições de
alguns tipos de açúcar |
O cristal é
o açúcar com cristais grandes e transparentes, relativamente difíceis de serem
dissolvidos em água. Depois do cozimento, ele passa apenas por etapas de
refinamento, as quais retiram cerca de 90% dos sais minerais. Por ser econômico
e render bastante, o açúcar cristal sempre aparece nas receitas de bolos e
doces.
O demerara é também usado no preparo de doces. Este açúcar de nome estranho é um pouco
mais caro que os demais. Ele passa por um refinamento leve e não recebe nenhum
aditivo químico. Seus grãos são marrom-claros e devido à camada de melado que
envolve seus cristais, o açúcar demerara tem valores nutricionais relativamente
altos, semelhantes aos do mascavo.
No açúcar
invertido, a sacarose pode ser hidrolisada por ácidos diluídos ou pela
ação da enzima invertase, liberando a glicose e a frutose (ambos
monossacarídeos isômeros) que formam sua estrutura original.
|
Essa reação acima é
denominada de inversão da sacarose, pois durante sua ocorrência, o plano da luz
polarizada[10] incidente desvia-se da direita (+ 66,5°) para a esquerda (+ 52,7° -
92,3° = - 39,6°). A inversão da sacarose é um “truque” usado na fabricação de
bombons como recheio pastoso. Durante o processo, o bombom é recheado com uma
pasta de sacarose, água e invertase. Até sua venda, já ocorrerá, no interior do
bombom, a inversão da sacarose com formação de uma mistura de glicose e
frutose. Fortuitamente, esses açúcares de seis carbonos são mais solúveis em
água do que o de doze carbonos e, então, como conseqüência de sua dissolução na
água, existente na pasta, a mistura passa a ser mais doce e ter uma
consistência de líquido. Vale lembrar que a doçura da glicose e da frutose em
relação à sacarose é de, respectivamente, 0,74 e 1,74. Fazendo-se a média,
temos que a doçura relativa da mistura de iguais proporções dos dois
monossacarídeos é (0,74 + 1,74) / 2 = 1,24 maior que a sacarose.
[10] A luz comum (ou natural) é formada por ondas eletromagnéticas, sendo que as
ondas elétricas vibram em um plano e as magnéticas em outro, sempre
perpendiculares entre si. Além disso, à medida que a luz “caminha”, estes dois
planos giram em torno do seu próprio eixo de propagação, em todos os planos. A
luz polarizada nada mais é do que a seleção de um destes planos da luz, através
de um equipamento denominado “polarizador”.
Açúcar é proveniente só de cana?
Não. O açúcar que
conhecemos também pode ser produzido a partir de outras plantas. A produção que
se destaca (após o açúcar proveniente da cana) em escala industrial é do açúcar
da beterraba. Planta da família Chenopodiaceae, a beterraba tem como
espécie utilizada na produção de açúcar a Beta vulgaris L. (veja Figura
8). Existem, no entanto, diferenças entre uma extração e outra. Para começar, o
percentual de açúcar (sacarose) na cana é de 60%. Já na beterraba, este
percentual cai para 15% a 20%. Logo, é mais vantajoso economicamente produzir
açúcar de cana. Porém, países que não possuem um clima tão tropical como o
Brasil não conseguem que a cana se adapte e cresça de forma natural, tendo em
vista as condições desfavoráveis que a planta encontra. Temos como exemplo de
alguns países do continente europeu, que se obrigam a produzir açúcar de
beterraba e importar o que não conseguem produzir de países predominantemente
tropicais.
Outro exemplo é o EUA, que produz metade
do seu açúcar através da beterraba, a qual não é aquela que colocamos na
salada, mas outra, de cor branca, bem maior que a espécie que roxa
conhecemos. Não há diferença, sob o ponto de vista químico, entre o açúcar
proveniente de cana e de beterraba, pois em ambos há praticamente 100%
sacarose. Isso faz com que as empresas não sejam obrigadas a informar nos
rótulos de seus produtos a procedência do açúcar. |
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Figura 8 - Imagem de uma beterraba da
espécie Beta vulgaris L. |
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O açúcar de beterraba foi extraído pela primeira vez em 1747, embora já
tenha sido descoberto como componente da beterraba em 1575. Em 1786 houve uma
tentativa de passar a solidificação do açúcar para o plano industrial, mas os
altos custos e a baixa produção não trouxeram os resultados esperados. Só mais
tarde foi concretizada a extração industrial do açúcar de beterraba na França.
Dourar ou caramelizar?
Existem dois tipos de reações de
escurecimento em alimentos: enzimático, o qual é visto na superfície da fruta
cortada e o escurecimento não enzimático, que ocorre quando certos tipos de
alimentos (como café, carnes, pães ou açúcares) são aquecidos.
A formação da cor
escura desejada na cozinha é, geralmente, associada com o escurecimento não-enzimático,
o qual ocorre de diversas maneiras. As formas mais importantes de escurecimento
não-enzimático são:
1) A reação de
Maillard, em que açúcares, aldeídos e cetonas reagem com compostos
nitrogenados, tais como aminoácidos e proteínas, para formar pigmentos de cor
marrom, os quais são produtos de reações complexas, inclusive de polimerização;
2) Reações de caramelização,
em que açúcares são aquecidos na ausência de compostos nitrogenados, os quais
foram também produtos complexos, também resultados de polimerização.
Durante a reação de caramelização, os açúcares submetem-se à desidratação e
após à condensação ou polimerização, ocorrendo a formação de estruturas
complexas de massas moleculares diferentes. Levemente colorido e de gosto
agradável, o caramelo começa a ser produzido durante os estágios iniciais,
mas à medida que a reação continua, ocorre a formação de estruturas de massa
molecular mais elevada, o que influi no sabor, o qual se torna gradativamente
mais amargo com a elevação da temperatura, ou seja, o açúcar irá queimar de
acordo com uma relação diretamente proporcional ao tempo que você deixar (ou
esquecer, o que não é incomum acontecer) a panela com açúcar no fogo. |

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A cor do caramelo
ganhou primeiramente importância comercial como aditivo em produtos de
cervejaria (por exemplo, cerveja escura) e como um aditivo de cor para o
conhaque. Em 1858, o químico francês M. A. Gelis foi autor do primeiro estudo
publicado sobre a cor do caramelo. O trabalho de Gelis indicou que a
caramelização da sacarose contém três produtos principais: um produto da
desidratação, a caramelana (C12H18O9) e dois
polímeros, caramelen (C36H50O25) e caramelin
(C96H102O51).
Há muitas
controvérsias no que diz respeito aos valores do ponto de derretimento (a
literatura indica um intervalo relativamente grande de 160 a 191ºC) do açúcar com pureza elevada. Pesquisadores (GERMANO et al., 2004) estudaram esse
assunto e chegaram à conclusão de que o ponto de fusão (amolecimento) do açúcar
(sacarose com alto grau de pureza) é de aproximadamente 189 ºC. Contudo, o
processo de caramelização (mudança de cor) começa a surgir ainda em 154 ºC,
sendo que a formação de compostos mais complexos, quando há a formação da cor
amarela, inicia-se em 180 ºC. O açúcar passa de tons bem claros de amarelo,
transformando-se para um durado característico até chegar a uma cor negra intensa,
quando a temperatura atingir cerca de 210 ºC. Esse processo de formação de
carbono puro segue até aproximadamente 600 ºC (veja Figura 9).
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Figura 9 – Diferentes tonalidades do
caramelo em função da temperatura. Fonte: Chef Simon |
Muitos cozinheiros
supõem que douramento de todos os alimentos na cozinha é o resultado da
caramelização, tanto que é possível ver receitas que descrevem processos como,
por exemplo, a “caramelização de carnes”. Nem todo o escurecimento é originado
pela reação de caramelização. No caso de carnes, ocorrem reações químicas
diferentes que recebem o nome genérico de “Reações do Maillard”, as quais
produzem o sabor característico do churrasco. Essas reações são similares à
caramelização, com a diferença de envolverem interações de açúcares com
proteínas em temperaturas mais altas do que a caramelização.
Uma experiência
interessante de se fazer em casa é aquecer o açúcar com água até ele atingir uma
coloração característica do caramelo. Neste ponto, você pega um copo cheio de
água (a temperatura ambiente) e coloca o açúcar derretido, ainda fervendo, na
água. O açúcar voltará ao seu estado sólido, devido à diminuição da temperatura
promovida pela água. Essa experiência é muito interessante, pois, ao seu final,
você pode comer os produtos formados! Uma delícia! Hum...
Açúcar refinado faz mal? É melhor utilizar o mascavo?
O açúcar mascavo
passa por um número menor de processos de refino do que o açúcar refinado. A
literatura por mim consultada indica que, desconsiderando este aspecto, o
açúcar refinado é essencialmente equivalente ao mascavo, só que este último
teria um maior número de sais minerais do que o refinado, uma vez que o mascavo
possui cerca de 90% de pureza, contra 99,8% do açúcar refinado. Contudo, o
refino concentra mais a sacarose do açúcar, fazendo com que se tenha um produto
com alta densidade de sacarose. Nosso corpo não é acostumado com compostos de
alta pureza (veja o exemplo da água e os sais minerais nela dissolvidos e sua
importância). Essa concentração pode causar no organismo um efeito muitas vezes
caracterizado por analogia como “efeito montanha-russa”, o qual se caracteriza
por altas e baixas concentrações de glicose no sangue em tempos relativamente
curtos. Esse feito pode, a longo prazo, causar avarias no sistema liberador de
insulina, podendo resultar em patologias.
Se me perguntassem
qual a minha opinião sobre o açúcar mascavo e o refinado, ou qual seria o mais
recomendado sob o ponto de vista da nutrição, eu diria, sinceramente, “não sei”.
Bem, mas posso fazer algumas especulações. Vamos lá!
Quanto ao assunto
“açúcar refinado”, tenho minha opinião estabelecida. Durante minha revisão
bibliográfica, deparei com o livro O que Einstein disse a seu cozinheiro,
do autor Robert Wolke, e fiquei bastante pensativo quanto às suas palavras, em
especial com as que destaco abaixo:
"Será que alguém poderia por favor me explicar
por que, quando os componentes do melado são retirados, a sacarose pura
restante de repente passa a ser ruim e danosa à saúde?" p.16
A meu ver, parece
que o autor, inclusive nos parágrafos anteriores à citação acima, fez somente
uma análise sob o ponto de vista químico, comparando o açúcar mascavo e o
refinado. Não considerou, talvez por não ser sua área, os açúcares mascavo e
refinado e suas dinâmicas em nosso organismo. O refinado é um produto concentrado e pode gerar, com um seu consumo excessivo, altos níveis de glicose no
sangue de maneira relativamente rápida, visto que a catálise da sacarose não
demanda muito tempo e energia para ocorrer. Inclusive, há a expressão “calorias
vazias”, devido à retirada dos nutrientes do açúcar e ao fornecimento, quase
que 100%, de glicose e frutose ao organismo.
Respeitando a tolerância
de cada indivíduo, considerando os mais sensíveis aos produtos concentrados, pode
ocorrer um efeito chamado “montanha-russa”, como expliquei anteriormente, cujo
ponto mais baixo de hipoglicemia é de duas a quatro horas após a refeição. O
indivíduo pode se sentir cansado e volta a ter fome. Caso ele novamente coma um
alimento à base de açúcar refinado, mais perturbações podem acontecer
novamente. Com o passar dos anos, a constante necessidade de insulina e as
quedas nos níveis de glicose no sangue podem provocar avarias nas glândulas que
produzem insulina, devido ao excesso de trabalho.
A decisão de optar
por um tipo de açúcar é muito pessoal. Minha sincera opinião é que, se você
possui problemas de saúde, quer emagrecer ou apenas manter-se saudável e em
forma, procure um profissional da nutrição, o qual saberá, com base em análise
das respostas do seu metabolismo, orientá-lo sobre a ingestão de alimentos e
lhe indicará o adoçante mais adequado.
Adoçantes artificiais
Nos dias atuais o homem tem procurado uma vida
mais saudável e seus hábitos alimentares vêm sendo modificados pela
introdução de novos produtos na sua dieta. Seja por cuidados com a estética
ou problemas de saúde, o homem está substituindo o açúcar por produtos
conhecidos como edulcorantes, compostos com sabor semelhante ao da sacarose,
porém com baixo valor calórico ou completamente sem calorias. |

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Conforme podemos ver na Figura 10,
em um espaço de 20 anos no EUA, o número de americanos que utilizam adoçantes
passou de 68 milhões, em 1984, para 180 milhões em 2004. Os edulcorantes
permitidos para uso em alimentos e bebidas dietéticas são vários, mas cada um
possui características específicas de intensidade, persistência do gosto doce e
presença ou não de gosto residual. Além disso, tais características podem se
modificar em função de suas concentrações. Esses fatores são determinantes na
aceitação, preferência e escolha por parte dos consumidores.
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Figura 10 – Número de consumidores
norte-americanos de produtos (comidas e bebidas) de baixa caloria e com
adoçantes dietéticos (em milhões de adultos). Fonte: Calorie Control Commentary: Fall 2004, Vol. 26 |
Segundo a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os adoçantes são produtos
especificamente desenvolvidos para dar sabor doce aos alimentos e bebidas,
tendo a sacarose (açúcar de cana ou de beterraba) como principal exemplar. Já
os adoçantes dietéticos conferem doçura sem possuir sacarose na composição,
pois são elaborados para atender às necessidades de pessoas com restrição de
carboidratos simples (como, por exemplo, os diabéticos).
Os adoçantes
dietéticos são constituídos basicamente por edulcorantes e agentes de corpo. Os
edulcorantes são substâncias químicas mais responsáveis pelo sabor doce e
normalmente possuem um poder adoçante muito superior à sacarose, sendo
necessária, portanto, uma quantidade muito menor para se obter a mesma doçura,
com a vantagem de ter menos ou nenhuma caloria. Já os agentes de corpo, também
chamados de veículos, são compostos utilizados com a finalidade de diluir os
edulcorantes dando volume ao produto. Como alguns edulcorantes são 1000 vezes
mais doces do que o açúcar (veja Tabela 2), se fossem comercializados na forma
pura, teriam que ser usados em quantidades muito pequenas para se obter a mesma
doçura da sacarose, o que tornaria seu uso inviável. Alguns exemplos de agentes
de corpo permitidos pela legislação são: água, lactose, glicose, maltodextrina
e manitol.
| Substância |
Doçura
relativa à sacarose |
| Lactose |
0,16 |
| Galactose |
0,32 |
| Maltose |
0,33 |
| D
- Glicose |
0,74 |
| Sacarose |
1,00 |
| Açúcar
invertido |
1,25 |
| D
- Frutose |
1,74 |
| Ciclamato
de sódio |
30 |
| Aspartame |
180 |
| Sacarina |
300 |
| Sucralose |
650 |
| Alitame |
2.000 |
| Taumatina
e monelina |
3.000 |
|
Tabela
2 – Doçura
relativa à sacarose (com valor arbitrário igual a 1) dos principais adoçantes
dietéticos naturais e artificiais. |
Os adoçantes
dietéticos podem ser divididos em dois grupos distintos: não-nutritivos
(sacarina, ciclamato, acessulfame-k, sucralose e esteviosídeo), que fornecem
doçura acentuada, não contêm calorias além de serem utilizados em quantidades
muito pequenas; nutritivos (frutose, sorbitol e aspartame), que fornecem
energia e textura aos alimentos, geralmente contêm valor calórico semelhante ao
açúcar e são utilizados em quantidades maiores em relação aos não-nutritivos.
| |
Acesulfame-K |
Aspartame |
Sacarina |
Sucralose |
| Composição |
6-methyl-1,2,3-oxathiazin-4-one
2,2-dioxide |
N-L-a-aspartyl-L phenylalanine
1 methyl ester |
1,2-benzisothiazol-3(2H)-one-1,1
dioxide |
1,6-dichloro-1,6-dideoxy-b-fructosuranosyl- 4
-chloro - 4 -deoxy -a - degalactopyranoside |
| Poder de doçura aproximado em relação à sacarose |
200 vezes mais doce |
200
vezes mais doce |
300
vezes mais doce |
600
vezes mais doce |
| Valor calórico |
Sem
calorias |
4
kcal/g |
Sem
calorias |
Sem
calorias |
| Metabolismo/excreção |
Não
metabolizado; excretado pelos rins sem ser modificado |
Na
digestão, formam-se o ácido aspártico, a fenilalanina e um pouco de metanol,
os quais são metabolizados |
Não
metabolizada; excretada pelos rins sem ser modificada |
Não
metabolizada. Excretada nas fezes e urina |
| ADI (Accpetable daily intake) – consumo diário
aceitável. |
15
mg/kg |
50
mg/kg |
15
mg/kg ou 1 g/dia |
50
mg/kg |
| Exigências de rotulagem adicional |
Não
contém |
Deve
conter o aviso no produto: “Contém fenilalanina” |
Deve
conter o aviso no produto: “A sacarina causa câncer em animais de
laboratório” |
Não
contém |
| Data em que recebeu aprovação pela FDA para uso
em alimentos |
1988 |
1981 |
1900
– e desde a aprovação interina nos anos 70. |
1998 |
| Estabilidade |
Muito
estável; pode ser usado no cozimento de alimentos |
Perde
o caráter doce quando exposto a altas temperaturas. Adicioná-lo ao final do
ciclo de cozimento do alimento |
Muito
estável; pode ser usada no cozimento de alimentos |
Muito
estável; pode ser usada no cozimento de alimentos |
|
Tabela 3 – Quadro comparativo das
características dos principais (mais usados) adoçantes dietéticos do mercado. |
Existem inúmeros adoçantes dietéticos disponíveis
no mercado. Esses citados na Tabela 3 são apenas os que se firmaram mais
no mercado, talvez em função da relação custo/benefício que possuem. A fim de
não tornar a discussão muito longa, até porque esse não é o foco principal
deste artigo, foi construída a tabela anterior na qual se faz um paralelo entre
os principais produtos adoçantes dietéticos utilizados no mercado e suas
características mais importantes.
Podemos começar a análise com base no poder de
adoçar ou doçura dos compostos. Esse “poder” é relativo à capacidade da
sacarose em adoçar os alimentos. Atribui-se arbitrariamente o valor “um” para
ela e, com base nisto, se especifica a doçura do adoçante. Só que, até o
momento, não se criou uma máquina que consiga comparar a doçura, visto que o
sabor doce é uma sensação fisiológica e até um pouco subjetiva. Portanto, os
adoçantes devem ser experimentados por verificadores humanos através do método
sensório-gustativo: indivíduos recebem soluções com concentrações diferentes
dos adoçantes em análise. O relacionamento das concentrações e das informações
dos verificadores humanos, em uma análise estatística, resulta então em um
valor quantitativo de doçura.
Percebe-se que o
acesulfame-K, o aspartame e a sacarina possuem praticamente o mesmo poder adoçante,
respectivamente, 200, 200, 300 vezes mais doce que a sacarose em solução aquosa. O adoçante que se destaca nesse aspecto é a sucralose, a qual possui um poder
adoçante cerca de 600 vezes o da sacarose. |
 |
Molécula
do acesulfame-K |
|
Outro aspecto importante o qual é analisado na
tabela são os valores calóricos dos adoçantes. Nesta tabela há apenas um
adoçante dietético que fornece calorias quando ingerido, o aspartame. Perceba
que ele fornece 4 kcal/g. O que isso significa? Que o aspartame fornece 4 kcal
(ou 16,74 kJ)[11] por grama de aspartame consumido. Isto mesmo! Um
leitor curioso poderia questionar. “Mas, esse valor não é o mesmo produzido
pela sacarose?”. Esse é um aspecto muito interessante. O aspartame produz a
mesma quantidade de energia do que a sacarose, em massa, mas seu poder adoçante
é cerca de 200 vezes maior que a sacarose, logo, a quantidade de aspartame
utilizado para adoçar os alimentos é muito menor. Por isso, o valor energético
fornecido pelo metabolismo do aspartame chega a ser insignificante.
Da mesma fora que o valor calórico, no quesito
metabolismo, o aspartame é diferente dos três outros adoçantes analisados. Isso
não significa, por favor, que ele seja ruim, nem bom! Apenas diferente! O
metabolismo do aspartame relativamente detalhado pode ser visualizado na Figura
11.
 |
Figura 11 –Metabolismo do aspartame |
Basicamente o aspartame é catabolizado[12] produzindo ácido aspártico (aminoácido),
fenilalanina (aminoácido) e metanol (álcool). Dois comentários se fazem
necessário quando ao metabolismo do aspartame: a produção de fenilalanina e sua
relação com a fenilcetonúria e o surgimento de metanol com a posterior formação
do ácido metanóico, composto extremamente tóxico em quantidades relativamente
baixas no nosso organismo.
A fenilalanina é um aminoácido, do tipo
essencial[13], que promove, dentre outras coisas, a formação de
precursores para a produção de melanina, pigmento responsável pela coloração de
nossa pele. Ela é tranqüilamente metabolizada pela grande maioria da população,
mas há uma pequena porcentagem (1 em cada 10.000 indivíduos da população
caucaciana) que não metabolizam perfeitamente a fenilalanina, a qual representa
os portadores da patologia chamada fenilcetonúria (PhenylKetonUria
- PKU). A PKU é uma doença autossômica recessiva, que se caracteriza pelo
defeito ou ausência da enzima fenilalanina hidroxilase, a qual converte a
fenilalanina em tirosina, dando seqüência as rotas metabólicas do organismo. Se
a PKU não for controlada assim que o bebê nascer, os altos níveis de fenilalanina
no sangue podem causar, além de retardo mental irreversível, atraso no
desenvolvimento psicomotor (andar ou falar), convulsões, hiperatividade, tremor
e microcefalia. O paciente com PKU não tratada geralmente mostra sintomas de
retardo mental com cerca de um ano de vida. Para maiores informações sobre a
PKU, acesse o artigo publicado em março de 2005 aqui no Zoom sobre a Fenilcetonúria e o “teste do pezinho”.
 |
Molécula de arpartame |
|
Em função da
formação da fenilalanina decorrente do metabolismo do aspartame, exige-se que
os produtos com aspartame possuam a seguinte frase: “Contém fenilalanina”.
Utilizando um rigor de análise (interpretação literal) da informação que a
frase possui, ela estaria errada, visto que o produto não contém propriamente
a fenilalanina, mas sim o aspartame que, quando metabolizado, produz
fenilanalina. Portanto, os fenilcetunúricos devem evitar alimentos e bebidas
que contêm aspartame. |
Outro produto do metabolismo do aspartame que
merece nossa atenção é o metanol, um composto de função álcool e de fórmula
molecular CH3OH. Este, ao entrar em nosso organismo, é transformado
em “ácido metanóico”, também conhecido como “ácido fórmico”[14]. Tal ácido carboxílico é extremamente tóxico em nosso organismo. Dependendo da quantidade de metanol ingerida, o indivíduo pode sofrer de
cegueira irreversível e, em quantidades mais elevadas[15], o ácido pode levar o indivíduo à morte.
Em e-mails e websites sobre o aspartame são
feitas acusações de queele, dentre outras coisas, é uma “arma de guerra”.
Vários aspectos são destacados sobre este adoçante dietético, como a produção
de metanol quando metabolizado, por exemplo. Certamente o metanol promove a
formação de um ácido extremamente tóxico ao nosso organismo, mas, conforme
revelaram estudos sobre o assunto (DAVOLI et al., 1986), os níveis de
metanol produzidos pelo metabolismo do aspartame são baixos o suficiente para
garantir nenhum problema com a formação mínima de ácido fórmico no organismo,
se respeitado, evidentemente, o nível diário de consumo do aspartame. No caso
específico deste adoçante, a FDA (Food and Drug Administration)[16] recomenda um consumo máximo de 50 mg/kg. Isso
significa que uma pessoa com 70 kg pode consumir, diariamente, cerca de 3500 mg
(ou 3,5 g) de aspartame por dia. Alguém poderia perguntar. “Quantas gotas de
aspartame posso consumir por dia?”. O cálculo envolve a relação entre a
densidade da solução do produto, massa de aspartame e o volume médio de uma
gota. Então, com base nesses dados, poderimos calcular quantas gotas de
adoçante dietético aspartame pode-se consumir, diariamente, de forma segura.
Apesar de estudos revelarem que o metanol
produzido não é suficiente para promover avarias em nosso organismo, é preciso
considerar o fato de que nem todos os metabolismos respondem bem a esses níveis
máximos de aspartame diários. É também comum ouvirmos de consumidores do
produto queixas sobre “dores de cabeça”, as quais são sintomas característicos
da ação do ácido fórmico. Sabe aquela dor de cabeça que surge pela manhã e que
algumas pessoas sentem após terem ingerido, no dia anterior, bebidas alcoólicas
chamada popularmente de “ressaca”? Pois essa dor de cabeça tem como explicação
a formação do ácido acético em nosso organismo, proveniente da oxidação,
catalisada por enzimas, do álcool etílico (etanol) em nosso organismo.
Até agora, com a ingestão de aspartame de
forma excessiva (mais de 50 mg/kg x peso/dia) foram confirmadas relações entre
ataques epiléticos e suas freqüências. Mas se a ingestão não ultrapassar o limite
estipulado, mesmo para essa subpopulação o aspartame é bem tolerado.
Com relação à data
de aprovação pela FDA, logo percebemos que o “avô” de todos os adoçantes
dietéticos é a sacarina. Descoberta em 1879, foi utilizada durante a primeira e
a segunda guerras mundiais adoçando os alimentos, compensando o racionamento de
açúcar que ocorreu na época. A primeira tentativa de tirá-lo do mercado foi em
1911, quando alguns cientistas chegaram a chamá-lo de “um adulteramento” e que
ele não deveria ser usado nos alimentos.
 |
Molécula de sacarina |
|
No ano de 1958, em um congresso sobre aditivos
alimentícios, a sacarina foi incluída na lista chamada de GRAS (Generally
Recognized As Safe) da FDA. Contudo, o órgão americano começou a revisar
algumas substâncias pertencentes à lista de produtos GRAS – incluindo a
sacarina – no início dos anos 70, a fim de assegurar-se de que os pareceres
científicos ainda eram válidos. Os estudos levantaram a hipótese de que a
sacarina poderia ocasionar câncer na bexiga, mas a análise de dados sugeriu
mais tarde que as impurezas, não a sacarina, poderiam ter causado os tumores. |
Então, em 1977, pesquisadores
canadenses estudaram os efeitos das impurezas e de outros fatores que poderiam
levar a formação de tumores e se convenceram que a sacarina causava câncer na
bexiga. A FDA se pronunciou dizendo que os ratos dos experimentos foram tratados
com sacarina equivalente a 800 latinhas de refrigerante diet/dia. O congresso
respondeu exigindo que a mensagem “O uso deste produto pudesse ser
prejudicial a sua saúde. Este produto contém sacarina, a qual se constatou causar
câncer em animais de laboratório” constasse nos produtos. Essa recomendação
se repediu diversas vezes e foi recentemente prorrogada em 2002.
A sacarina ainda é utilizada no
mercado, particularmente nos restaurantes, onde está disponível em pequenos pacotes. Sua estabilidade em altas temperaturas faz com que seja uma boa opção para
doces que necessitam cozimento. A sacarina também é economicamente
interessante, pois pode ser produzida por um custo relativamente barato. Ainda
na década de 70, a FDA e a NCI (National Cancer Institute) conduziram um estudo
sobre a hipótese de a sacarina causar câncer na bexiga nos seres humanos. Um
resultado geral concluiu que a população usuária do adoçante sacarina não teve
mais risco de desenvolver câncer do que a população em geral. Entretanto, o
estudo recomendou uma “evidência sugestiva” no que diz respeito aos usuários
que consomem muita sacarina ─ aqueles que fazem uso de seis ou mais pacotinhos
de sacarina por dia ─ podem ter aumentado o risco de desenvolver a
doença.
Segundo os pesquisadores, a chave
para os consumidores de sacarina deve ser a moderação, como é o caso de muitos
alimentos que, quando ingeridos em excesso, podem causar problemas. Outros
grupos da saúde, incluindo a Associação de Medicina Americana, Sociedade
Americana do Câncer e a Associação Americana de Diabéticos, concordam que o uso
da sacarina é seguro.
Por fim, o último aspecto relevante na Tabela
3 diz respeito à estabilidade dos adoçantes dietéticos em altas temperaturas. A única exceção com relação a esse aspecto é do aspartame, que em
temperaturas elevadas se degrada em seus constituintes, perdendo o sabor doce
e, por conseqüência, sua função no alimento. Portanto, se você quiser utilizar
aspartame em produtos que requerem aquecimento, utilize-o ao final do ciclo de
cozimento.
Vejam só como a química é
fantástica! A adição de átomos de cloro à estrutura da sacarose nos fornece a
sucralose, cerca de 600 vezes mais doce que a sacarose. Sua aprovação pela
FDA é recente (1998) e sua difusão no mercado ainda é pequena em comparação
aos similares. A FDA determinou a segurança da sucralose para o consumo
depois de revisar mais de 110 estudos em humanos e animais, sobre possíveis
efeitos tóxicos, incluindo efeitos carcinogênicos, reprodutivos e
neurológicos. |
 |
Molécula de sucralose |
|
Alguém pode pensar que
esse produto, por passar por inúmeros testes como os que a sucralose passou,
não é muito aconselhável para se utilizar. Contudo, esses estudos
justificam-se, pois a história dos adoçantes artificiais e as denúncias de seus
aspectos negativos são inúmeras de tal forma que, como um método de precaução,
depois das polêmicas relações entre aspartame e sacarina com o câncer, a FDA
teve um maior cuidado antes de liberar o produto para o consumidor final.
A sucralose apresenta
um perfil de sabor similar à sacarose e sem resíduos desagradáveis, é
extremamente estável durante todos os processos de elaboração típicos na
indústria de alimentos e bebidas, mantendo o seu sabor original, inclusive ao
ser exposta a altas temperaturas, apresentando também estabilidade durante a
“vida-de-prateleira” do produto.
[11] O SI recomenda que se utilize a unidade “joule” para representar a grandeza
“quantidade de calor”. Contudo, a unidade “caloria”, mesmo não pertencendo ao
SI, é admitida temporariamente como unidade para a representação de quantidade
de energia. Uma caloria equivale a 4,186 joules.
[12] O catabolismo consiste, basicamente, em um conjunto de reações que degradam as
substâncias em componentes menores (ou menos energéticos).
[13] A designação “essencial” para aminoácidos significa que estes não são
produzidos pelo organismo, logo, devem ser obtidos através da alimentação.
[14] O ácido metanóico recebe a designação popular de “ácido fórmico”, pois é uma
substância irritante, liberada na picada de alguns insetos. A palavra “formiga”
surgiu do latim formica, de onde deriva o nome do ácido.
[15] As doses tóxicas do metanol no homem variam de indivíduo para indivíduo. Alguns
autores consideram que o consumo de 20 mL provoca cegueira e que 60 mL
constitui a dose letal.
[16] A FDA é uma agência federal ligada ao governo americano que regula o comércio
de cerca de 80% dos alimentos e suplementos dietéticos e alimentares para
consumo animal e humano, abrangendo de laticínios a frutas frescas, de produtos
de pesca a biscoitos, de ração bovina a pó de guaraná, de água a bebidas
alcoólicas. Para maiores informações, acesso o website: www.fda.gov. No Brasil, existe a Agencia
Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, a qual desempenha um papel parecido
com a FDA nos EUA. Para maiores informações sobre a Anvisa, acesso o website: http://www.anvisa.gov.br/institucional/anvisa/apresentacao.htm
Adoçantes dietéticos podem ajudar a emagrecer?
Esta é a primeira pergunta que se
faz após se constatar que os adoçantes dietéticos geram uma ínfima quantidade
de calorias com o mesmo poder adoçante da sacarose, porém em quantidades bem
menores. É uma dedução natural, visto que os carboidratos são um dos principais
alimentos responsáveis, quando ingeridos em grandes quantidades, pelo aumento de
peso e os primeiros a serem “cortados” pelos nutricionistas quando procurados
por pessoas que desejam perder peso.
Existem hipóteses
para explicar a associação entre o alto consumo de alimentos ricos em
carboidratos e a obesidade. A primeira é que a sacarose age provocando
inicialmente hiperglicemia e depois hipoglicemia[17] reativa com conseqüente sensação de fome, responsável, por sua vez, pelo
consumo excessivo de alimentos. Outra se baseava na hipótese de que no homem
obeso, diabético ou não, verifica-se o aumento do apetite para os alimentos
ricos em carboidratos devido à redução nos níveis de serotonina. Alguns casos
de obesidade também podem estar relacionados com o maior número de receptores
de gosto na boca, por centímetro quadrado, comparativamente às pessoas normais.
Pesquisadoras
(ROSADO e MONTEIRO, 2001) estudaram a substituição de macronutrientes (por
exemplo: carboidratos e lipídeos) da dieta por adoçantes dietéticos. Segundo as
autoras, a obesidade possui diversos fatores, dentre os quais a ingestão de
macronutrientes e, em especial análise, de carboidratos favorece o aumento de
peso.
Falando
especificamente do açúcar, considerado um componente importante na
saciedade, sua substituição pelo adoçante dietético reduz o valor energético da
dieta, reduzindo também a massa corporal, num primeiro momento. Os efeitos dos
adoçantes sobre o apetite dependem da natureza e da densidade dos nutrientes
consumidos simultaneamente. Ainda segundo as autoras, não existem evidências
suficientes que mostrem que os adoçantes causem ganho de peso, mas seu uso pode
resultar em compensação energética com alimentos ricos em lipídios. Esse
últimos tendem a aumentar a densidade energética da dieta promovendo o
superconsumo passivo de energia, além de apresentar baixa prioridade oxidativa,
estando associados à baixa saciedade.
Vale lembrar que os adoçantes
dietéticos, no início da sua produção, atendiam uma parcela bem definida da
população, a qual representava os portadores de patologias que deveriam evitar
o uso de sacarose. Um exemplo são os portadores da diabete melito (chamada
freqüentemente por somente “diabete”) nos quais a insulina não é secretada em
quantidade suficiente ou suas células alvo não são estimuladas de forma
eficiente. Como conseqüência, os níveis de glicose sanguínea tornam-se
elevados. Todavia, apesar desses altos de glicose, as células “morrem de fome”
porque a entrada de glicose nas células, estimuladas pela insulina, está
prejudicada. Além disso, a formação de outros metabólicos se acelera, havendo
um acúmulo de corpos cetônicos no sangue, condição conhecida como cetose. O
caráter ácido desses corpos cetônicos faz com que haja uma sobrecarga da
capacidade tamponante do sangue e do rim, o qual controla o pH sanguíneo. Este
quadro, se não tomadas medidas emergenciais, causa uma desidratação grave e uma
diminuição do volume sanguíneo e, em última análise, situações de risco para a
saúde.
Portanto, pessoas saudáveis “adaptaram” o uso dos
adoçantes dietéticos, os quais tinham como objetivo inicial e fundamental
tornar mais palatável os alimentos ingeridos pelos diabéticos, para fins
estéticos, geralmente sem a consulta de um profissional da saúde. Cito, para
terminar, uma leitura minha dos ensinamentos orientais sobre a comida, o que
pode se estender também para outros aspectos de nossa vida. “O que diferencia a
comida de alimento para veneno é a sua quantidade”. Portanto, eu aconselho que
devamos evitar os exageros e preconizar o equilíbrio em detrimento dos
extremos. Não é por nada que um dos sete pecados capitais é a gula!
[17] O índice glicêmico (IG) é um indicador da velocidade de transformação do
carboidrato em glicose. Ele mostra o quão rápido um alimento ingerido consegue
aumentar a glicemia (a glicose no sangue). Para maiores informações, clique
aqui.
Uso de frutose como adoçante
Antes mesmo de o açúcar ser produzido em larga
escala e hoje se destacar como o adoçante mais utilizado no planeta, seja ele
proveniente de cana ou da beterraba, o mel era utilizado para adoçar os
alimentos. E você sabia que o açúcar do mel é predominantemente frutose? Cerca
de 42% em peso do mel é constituído por este açúcar natural. Seu nome é originário
da palavra latina fructus, já que as frutas são uma importante fonte de
frutose. Mas, quais são os benefícios e os malefícios para quem utiliza a
frutose como adoçante com fins medicinais ou estéticos? Há contra indicações?
Veremos alguns aspectos importantes a seguir.
Alguém que entende
um pouco de química e sabe do pré-suposto que a frutose, diferentemente da
glicose, não precisa de insulina para ser metabolizada, logo pensa que ela seja
a salvação segura para quem quer ter o prazer de saborear um alimento doce, mas
não querem sofrer o ônus de um possível exagero. Como tudo na vida, há pontos
positivos e negativos no uso da frutose como adoçante, dos quais, sumariamente,
falarei a seguir.
Existem alguns
argumentos a favor da utilização da frutose em diabéticos, basicamente:
independência em relação à insulina no transporte e distribuição de frutose até
a etapa inicial do metabolismo; absorção mais lenta da frutose em relação à
glicose; aumentos mínimos e transitórios da glicemia após a sua absorção.
Porém, não existe consenso entre os autores que publicam sobre esse assunto.
Alguns autores supõem que o consumo descontrolado de frutose resultaria em
glicose e seu polímero, o glicogênio, o que, conseqüentemente, geraria um
aumento da glicemia.
Para aqueles que
possivelmente queiram utilizar a frutose para fins estéticos, é importante
ressaltar que ela é um importante precursor para a formação de lipídios, os
quais constituem um problema de saúde pública: a obesidade. Uma pesquisa realizada na Alemanha com ratos sugeriu que a frutose
pode engordar mais que o açúcar comum. O estudo mostrou também que o ganho de
peso não depende apenas do número de calorias ingeridas, mas também do tipo de
alimento.
Por fim, gostaria
ressaltar/recomendar que sempre é fundamental consultar um profissional da
saúde, nesse caso, da nutrição. Como podemos verificar neste capítulo, há
vários aspectos a serem levados em consideração e, mesmo que seu caso seja
simplesmente para a manutenção do peso e não um caso grave, envolvendo uma
doença, como é o caso dos diabéticos, é importante que um profissional seja
consultado. Pergunte, compare, proponha, experimente, mas sempre sob orientação
de um especialista, pois com saúde não se brinca!
Dos laboratórios para a cozinha
Quem sabe você, no futuro, se for
diabético(a) (tomara que não, mas encare este capítulo como uma mera suposição,
não uma maldição!) e estiver com níveis altos de açúcar no sangue, a melhor
resposta poderá ser uma só: mais açúcar. Um tipo especial de açúcar, para ser
mais específico.
Segundo pesquisas
recentes, não se pode mais dizer que os diabéticos devem ficar longe de
qualquer tipo de açúcar. Porém, eles devem sim ficar longe dos açúcares que
atravessam rapidamente as paredes do intestino e se acumulam no sangue como a
glicose, molécula essencial para organismo produzir a energia necessária a sua
manutenção. É o que dizem os pesquisadores do Instituto de Botânica de São
Paulo e da Universidade Federal de Lavras (UFLA), os quais extraíram do
capim-favorito ─ uma gramínea que
cresce à beira de estradas ─ um
tipo específico de açúcar chamado betaglucano, que pode ter um efeito benéfico
que, em suma, consiste em diminuir a quantidade de glicose da corrente sanguínea
como demonstraram experimentos realizados com ratos.
Resultados obtidos por
pesquisadores em outros países constataram que o betaglucano, mesmo em
concentrações baixas, reduz até 50% a taxa de glicose no sangue durante 24
horas. Esse tipo de carboidrato tem o potencial natural de ser um redutor da quantidade
de glicose existente no sangue. Quem sabe, no futuro, será uma alternativa para
as pessoas com diabetes. Os pesquisadores brasileiros também notaram que há a
possibilidade de que a interação do betaglucano com outro açúcar encontrado nas
gramíneas, o arabinoxilano, possa ser mais potente do que o betaglucano
sozinho. Para saber mais sobre a pesquisa, clique
aqui.
Que tal um pouco de música?
Não é incomum
ouvirmos frases como, por exemplo, “meu docinho de coco”, como referência a
pessoa que amamos. Sem dúvida, o sabor doce conquista muitas pessoas, sendo que
muitas até admitem um vício por ele. Com base nessa observação, para encerrar
este artigo, escolhi uma melodia que tem tudo a ver com o tema aqui discutido.
Com vocês, o grupo The Archies e a música “Sugar, Sugar”.
The Archies – Sugar
Sugar
CHORUS 1:
Sugar
Oh, honey honey
You are my candy girl
and you got me wanting you
CHORUS 2:
honey
oh, sugar sugar
you are my candy girl
and you got me wanting you
I just can't believe the
loveliness of loving you
(I just can't believe it's true)
I just can't believe the wonder
of this feeling too
(I just can't believe it's true)
CHORUS 1, 2
When I kissed you girl
I knew how sweet a kiss could be
(Knew how sweet a kiss could be)
Like the summer sunshine
pour your sweetness over me
(pour your sweetness over me)
Oh, pour a little sugar on me
honey
(sugar)
Pour a little sugar on me baby
(honey honey)
I'm gonna make your life so sweet
Yeah Yeah Yeah
Pour a little sugar on me
Oh yeah
Pour a little sugar on me honey
Pour a little sugar on me baby
I'm gonna make your life so sweet
hey hey hey
Pour a little sugar on me honey
CHORUS
1, 2 |
The Archies –
Docinho Docinho
REFRÃO 1:
Docinho,
Oh doçura, doçura.
Você é o meu bombom, garota,
E me deixa te desejando.
REFRÃO 2:
Doçura,
Oh docinho, docinho.
Você é o meu bombom, garota,
E me deixa te desejando.
Eu simplesmente não consigo acreditar
no encanto de amar você.
(Simplesmente não consigo acreditar que é verdade)
Eu simplesmente não consigo acreditar no milagre
deste sentimento também.
(Simplesmente não consigo acreditar que é verdade)
REFRÃO 1 E 2
Quando beijei você, garota,
Eu soube o quanto um beijo poderia ser doce,
(Soube o quanto um beijo poderia ser doce)
Como a luz do sol de verão,
derrame sua doçura sobre mim.
(Derrame sua doçura sobre mim)
Derrame um pouco de açúcar sobre mim,
doçura,
(Docinho)
Derrame um pouco de açúcar sobre mim, querida,
(doçura, doçura)
Eu vou fazer sua vida tão doce,
Sim, sim, sim.
Derrame um pouco de açúcar sobre mim,
Oh sim,
Derrame um pouco de açúcar sobre mim, doçura,
Derrame um pouco de açúcar sobre mim, querida.
Eu vou fazer sua vida tão doce,
Ei, ei, ei.
Derrame um pouco de açúcar sobre mim, doçura.
REFRÃO
1 E 2 |
Para entrar em
contato com o autor por e-mail:emiliano@quimica.net
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Unlocking the
secrets of taste - Copyright ©
2001 American Chemical Society http://pubs.acs.org/cen/coverstory/7937/7937taste.html
Como aplicar esta matéria em sala de aula
O último artigo da série “Química na cozinha”
trata de inúmeros temas correlacionados ao tema principal: o açúcar. Cabe ao
professor selecionar os temas que estão de acordo com a proposta de trabalho e
também com o conteúdo programático da série para que, assim, se possa utilizar
este texto com eficiência em sala de aula.
Dentre as diversas possibilidades de uso,
podemos realizar a experiência da desidratação do açúcar perante a ação
higroscópica do ácido sulfúrico. Esse experimento é relativamente simples, que
não demanda reagentes muito caros nem difíceis de conseguir, porém tem o perigo
de causar acidentes graves caso o ácido sulfúrico concentrado entre em contato
com alguma parte do corpo dos alunos ou do professor.
Outro aspecto do texto que se pode trabalhar são
as fórmulas estruturais dos adoçantes dietéticos, com o aspartame, sacarina,
sucralose, dentre outros. A caracterização das funções presentes nas moléculas
é um conteúdo que pode ser trabalhado de forma contextualizada.