Argélia: uma guerra civil encoberta

Os enfrentamentos entre islâmicos e o governo argelino
condicionam o presente e o futuro da Argélia, quatro décadas depois da proclamação
da República Democrática em 1962.
A difícil luta pela independência (1954-1962) fortaleceu
um movimento nacionalista integrado na Frente Nacional de Liberação (FLN) que
se instalou no poder, estabelecendo um regime de partido único. As crises econômicas
e políticas que assolaram o país, entretanto, fizeram com que dirigentes religiosos
inserissem o radicalismo islâmico na vida argelina.
Em 30 de dezembro de 1991, os integrantes da Frente
Islâmica de Salvação (FIS) ganharam o primeiro turno das eleições. Seu triunfo,
porém, foi barrado pelos militares que obrigaram o presidente Chadli Benvedid
a suspender o processo eleitoral, declarar a FIS ilegal e decretar estado de
exceção. Diante dessa repressão, o Exército Islâmico de Salvação (EIS) constituiu-se
como braço armado da FIS, concentrando seus ataques a alvos militares. Além
disso, o Grupo Islâmico Armado (GIA) declarou guerra aos estrangeiros que viviam
no país.
Após o golpe militar, Benvedid saiu do poder, que
foi passado para o herói da independência Mohamed Budiaf, presidente do Alto
Comitê de Estado (ACE), criado especialmente para contornar a crise política.
Em 29 de julho de 1992, entretanto, Budiaf foi assassinado e o militar Belaid
Abdesalam assumiu a presidência declarando guerra total à Frente Islâmica de
Salvação. Desde então, o enfrentamento entre os extremistas islâmicos e as forças
do governo tem sido constante, provocando 120 mortes.
Em janeiro de 1994, o Alto Comitê encerrou suas atividades.
Foi criado, então, o Conselho Nacional de Transição (CNT), que, substituindo
a Assembléia Nacional, impôs uma nova lei eleitoral. Em outubro desse mesmo
ano foi eleito como presidente Liamin Zerual ,que assumiu o cargo conclamando
a população a dar um basta nos confrontos político-religiosos no país. Para
isso, convocou um referendo para modificar a Constituição de 1976 e excluir
os partidos religiosos ou regionais.
Em 1997, o Exército Islâmico de Salvação decretou
uma trégua unilateral. Porém, as matanças por parte dos grupos radicais continuaram.
Dois anos depois, o presidente Abdelaziz Bouteflika concedeu a anistia para
vários presos políticos. Numa consulta popular, o povo argelino pronunciou-se
a favor da paz no país.
Porém, após a vitória da FLN nas eleições de 2002,
em pleno 40º aniversário da independência da Argélia, o terrorismo islâmico
voltou a assolar o país, deixando 35 mortos e 80 feridos. Os enfrentamentos
entre o governo e os radicais islâmicos têm se mantido sem trégua até os dias
atuais.