Dez anos de arqueologia
subaquática no Brasil
Preocupada com a preservação desses bens culturais
para as gerações futuras, a arqueologia subaquática inclui em suas atividades
não só a investigação sistemática in situ, mas também a proteção e
gestão do patrimônio cultural subaquático, através da confecção de inventários
do tipo Carta Arqueológica.
Com o intuito de reverter esta preocupante
situação de risco, que nos coloca na contramão do mundo, e promover a sustentabilidade
desse patrimônio, estão sendo desenvolvidos projetos e firmados diversos
protocolos de cooperação nacional e internacional envolvendo órgãos governamentais,
universidades, ONGs e empresas de diversos setores da iniciativa privada.
Mesmo assim, apesar dos problemas enfrentados,
completamos, neste ano de 2003, dez anos de luta oficial em prol do patrimônio
cultural subaquático no Brasil. Nesse período, ironicamente, o grande financiador
e incentivador da arqueologia subaquática foi o próprio Estado. Pois grande
parte do desenvolvimento dos pesquisadores e dos projetos, em nível de pós-graduação,
foi possível graças à Universidade de São Paulo (USP) e à Fapesp (Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ambas ligadas ao governo estadual.
O período em questão inicia-se em 1993, ano
em que Gilson Rambelli iniciou oficialmente, no Museu de Arqueologia e Etnologia
da Universidade de São Paulo (MAE-USP), seu mestrado: Arqueologia subaquática
e sua aplicação à arqueologia brasileira: o exemplo do baixo vale do Ribeira,
sob orientação da profa. dra. Maria Cristina Mineiro
Scatamacchia. Vale ressaltar que esse projeto contou com uma especialização
prévia do autor em arqueologia subaquática, na França, nos anos de 1992,
1994 e 1998. Também em 1993, foi organizada, na VII Reunião da SAB, uma mesa-redonda
composta por representantes da arqueologia brasileira e da Marinha do Brasil,
com o objetivo de discutir os problemas e as perspectivas da prática da arqueologia
subaquática no Brasil.
A escolha do tema da pesquisa de mestrado acima
citada, pioneiro na arqueologia brasileira, buscou iniciar o estudo sistemático
de sítios arqueológicos submersos, com o objetivo não só de provar aos arqueólogos
descrentes das possibilidades seguras de realizar pesquisas embaixo d’água
com a mesma seriedade que em superfície, como também servir de exemplo concreto
contra o forte discurso do lobby da caça ao tesouro, criando um debate
entre produção do conhecimento versus produção e comercialização de
coleções de artefatos.
A escolha dos sítios – um porto marítimo, Porto
Grande de Iguape; um sítio de contato interétnico indígena/europeu: Toca
do Bugio; e um sítio pré-histórico: Sambaqui do Prefeito –, rompeu com a
tradição nacional de considerar os sítios arqueológicos submersos sinônimos
de sítios de naufrágio e abriram um novo universo de pesquisa voltado à extensão
de sítios arqueológicos ao ambiente aquático, buscando a compreensão da dinâmica
cultural na interface terra-água, no processo de ocupação do litoral sul
de São Paulo (baixo vale do Ribeira).
Os resultados que obtivemos permitiram as primeiras
mudanças em prol da arqueologia realizada no ambiente aquático. Possibilitaram
ainda a realização de outros trabalhos na região, envolvendo diferentes épocas
e contextos, e assim, a partir do ano 2000, resolvemos incluir também em
nossas pesquisas o estudo das embarcações naufragadas.
Ainda em fins da década de 1990, foram iniciadas
mais duas pesquisas de mestrado no Museu de Arqueologia e Etnologia MAE-USP,
sob orientação de Scatamacchia: a de Paulo F. Bava
de Camargo, já encerrada, que tratou dos restos de
uma fortificação do século 19, atualmente submersa na barra
de Cananéia, SP; e a
de Flávio Rizzi Calippo, em fase final, que estuda os sambaquis
com bases submersas na Ilha do Cardoso/SP, resultantes de possíveis variações
do nível marinho.
E esse processo continua,
pois neste ano tivemos o ingresso de mais um aluno de doutorado, Leandro Duran,
com sua pesquisa voltada para o ambiente subaquático da Ilha do Bom Abrigo,
localizada em frente da barra de Cananéia, SP.
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Imagem de satélite da área de pesquisa em Cananéia |
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Arqueólogos identificando um sítio arqueológico pré-histórico submerso
(Foto: Fernando Andrade) |
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Restos de um sítio arqueológico de naufrágio e a qualidade da conservação
de artefatos orgânicos como a madeira e a corda (Foto: Francisco Alves,
CNAN/Portugal) |