Levar uma classe para a sala de informática parece uma tarefa de alto risco para professores que nunca o fizeram, e esse medo tem boas razões para existir. A princípio parece mesmo temerário levar uma turma numerosa, por vezes agitada (para não dizer indisciplinada), em uma sala com um número reduzido de computadores (frágeis e caros) e conseguir algum controle sobre a situação. Em uma tentativa de analogia podemos dizer que o professor sente-se como quem teria de levar uma porção de cães e gatos e soltá-los juntos em uma loja de cristais finos.
Geralmente é muito rara a escola onde haverá um computador para cada aluno e, paradoxalmente, quando isso ocorre o resultado não é melhor do que ter dois ou três alunos por computador. A explicação é simples: os alunos trabalham de forma mais produtiva em grupos do que individualmente, e isso tem muito pouca relação com os computadores diretamente e muito mais a ver com a própria dinâmica do aprendizado do aluno contemporâneo.
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Os alunos trabalham melhor em duplas ou trios |
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A sensação que inicialmente temos ao ver um amontoado de alunos diante dos computadores é a de que não se poderá saber o que cada um estará fazendo. E isso é mesmo verdade, mas não deve ser preocupante, pois em grupos geralmente há uma divisão de tarefas curiosa entre os alunos: enquanto um manipula o mouse e o teclado, os demais apontam os ícones que devem ser clicados, lêem partes diferentes da tela, sugerem procedimentos etc. Assim, aquilo que para um espectador que olha de longe parece ser um ataque caótico e descoordenado ao computador, nada mais é do que um processo ordenado e harmônico de exploração conjunta de uma ferramenta de múltiplos recursos.
Em quase toda turma haverá sempre uma heterogeneidade muito grande entre as habilidades de manipulação do computador. Isso não é em nada muito diferente do que a heterogeneidade entre o conhecimento e as habilidades dos alunos sobre outros assuntos que nada têm a ver com computadores e assim como uma turma heterogênea pode aprender sobre a história do Brasil em uma aula tradicional, também poderá fazê-lo usando o computador como ferramenta auxiliar.
A heterogeneidade da classe e das pequenas turmas diante de cada computador facilita o aprendizado daqueles que dominam menos a máquina e, por outro lado, propicia também que o próprio conteúdo seja aprendido de forma compartilhada. Aquilo que às vezes nos parece o caos é tão-somente a maneira não linear dos alunos trabalharem e aprenderem em grupos.
Outro problema que amedronta bastante os professores iniciantes no uso da sala de informática consiste em saber “como controlar” o que os alunos estão fazendo. Rapidamente descobrimos que alguns estão “jogando”, outros navegando por sites que não estavam no script e ainda outros estão mexendo nas configurações do computador, por exemplo. Isso ocorre sempre que eles terminam suas tarefas e geralmente significa que a tarefa foi mal dimensionada para o tempo de execução, embora também ocorra quando alguns grupos apresentam uma maior facilidade para realizar a tarefa, ou quando a tarefa não é estimulante ou, ainda, quando não conseguem executar a tarefa e “desistem” dela.
A solução para esses casos consiste em planejar tarefas exeqüíveis no tempo previsto, interessantes, que envolvam os alunos e os mantenha focado nelas. Além disso, é preciso estabelecer um contrato com os alunos onde fique claro que eles devam deixar os computadores quando a tarefa for terminada. Quando temos muitos alunos e poucos computadores, por exemplo, podemos dividir a turma em duas partes e enquanto uma fica nos computadores a outra realiza outra tarefa que não requeira o computador. Nesse caso, sempre que uma equipe terminar sua tarefa e partir para algum joguinho, bastará chamar outra equipe para usar aquele computador. Os próprios alunos encarregam-se de ficar policiando uns aos outros, pois geralmente todos eles querem poder usar o computador.
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Muitos jogos já vêm com o próprio Sistema Operacional do computador. |
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É claro que muitos desses problemas também poderão ser evitados se os computadores forem “limpos” de forma a serem retirados deles todos os joguinhos e programas que não forem essenciais. Para manter os computadores “limpos” também será necessário que periodicamente alguém os “limpe”, pois os alunos tendem a trazer joguinhos de casa para instalá-los no computador, mesmo sem autorização para tal, e é muito difícil impedir ou controlar isso. Escolas que não dispõem de um técnico para manter os computadores “limpos” e configurados podem atribuir essas funções para alunos-monitores ou professores que se disponham a fazê-lo periodicamente.
O planejamento das atividades é essencial para o bom controle do tempo e da turma, e o acordo de regras a serem seguidas por todos deve ser sempre claro quanto ao que se pode e o que não pode ser feito na sala de informática. É claro que quando a turma é dividida em duas (ou três) é preciso calcular e reservar um tempo igual de uso do computador para cada turma. Fazer cumprir esse tempo também é essencial e, por isso, a atividade dever ser muito bem planejada. Uma boa idéia consiste em planejar e executar a atividade antes dos alunos, de maneira que a atividade dure entre 10 e 20 minutos.
O tempo na sala de informática não corre no mesmo ritmo do tempo na sala de aula. Na sala de informática tudo é mais rápido e sempre deve haver um tempo para “antes” e outro para “depois” da atividade, pois os computadores precisam ser ligados, desligados, os alunos precisam se deslocar, às vezes é preciso abrir e fechar a sala etc. Ajustar esses tempos é essencial para o sucesso da empreitada.
Escolas que dispõem de um técnico responsável ou de alunos monitores que podem abrir a sala, ligar os computadores e desligá-los ao final, obviamente contam com uma vantagem considerável, mas mesmo nas escolas que não contam com esses recursos os professores podem planejar os tempos de forma a contornar essas dificuldades extras. O importante é que os tempos sejam incluídos no planejamento da atividade. Uma outra sugestão útil consiste em ter um relógio de parede na sala de informática.
De qualquer maneira uma outra boa sugestão é a de usar sempre aulas duplas para as atividades na sala de informática, pois quando são necessários deslocamentos e procedimentos de ligação e desligamento dos computadores, trocas de turma, explicações gerais sobre o uso de algum software etc., perde-se muito tempo nisso e, como se não bastasse, muitas vezes o professor ainda tem que “fazer a chamada” e preencher papéis de controle de uso da sala de informática, por exemplo.
Outra sugestão interessante, e que pode evitar atropelos e dificuldades na realização das tarefas, consiste em deixar sempre pelo menos um computador “livre”. Ou seja, nunca planeje a atividade considerando que todos os computadores estarão à disposição dos alunos, pois computadores travam e muitas vezes não conseguimos resolver o problema durante a própria aula. Tendo pelo menos um computador “livre” poderemos sempre utilizá-lo como “reserva” se algo der errado. E, acredite, quase sempre algo dará errado. Acostumar-se a trabalhar com margens de segurança e estar preparado para usar os planos “B” e “C” é parte integrante do aprendizado de uso da tecnologia, pois essa, embora fascinante, ainda é muito mais precária do que o “giz e lousa” que nunca nos deixaram na mão.
Uma questão que também atormenta, e muito, os professores iniciantes no uso da sala de informática, diz respeito à quantidade ideal de alunos por computador. Muitos professores imaginam, por exemplo, que deva haver um computador para cada aluno e que não é possível trabalhar de forma produtiva com dois ou três alunos por computador. Bom, em linhas gerais pode-se dizer que não há um “número mágico” de alunos por computador, mas sim um “número possível e viável” de alunos por computador.
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Sala de informática de uma escola de Ensino Médio italiana. Não é só por aqui que há mais alunos do que computadores. |
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O número de alunos por computador depende do número de alunos da classe, do tempo de execução da atividade e da quantidade de computadores disponíveis. Geralmente três alunos por computador é um bom número para salas com poucos computadores e muitos alunos. Com uma quantidade de oito computadores, por exemplo, é possível trabalhar com classes de até quarenta alunos divididos em duas turmas, pois cada turma utilizará seis ou sete computadores de cada vez, tendo-se três alunos por computador. É claro que em turmas menores, ou dispondo-se de mais computadores, pode-se formar duplas em vez de trios. Já em situações com menos computadores disponíveis podem-se formar três turmas em vez de duas.
É muito importante que o professor tenha sempre em mente que o foco do uso da sala de informática é a atividade pedagógica que se pretende desenvolver com o “auxílio” dos computadores e não, ao contrário do que muitos pensam, o uso em si dos computadores.
O medo de que os alunos possam “danificar” os computadores (leia o artigo “Quebrando Computadores” - veja os links no final) também é natural e, de certa forma, justificável. Porém, esse medo não deve ser usado como desculpa para não usar a sala de informática. Há várias estratégias que podem auxiliar o professor a ter um “melhor controle” na sala de informática.
O maior problema encontrado geralmente é o das alterações de configuração de personalização do computador. Os alunos adoram mudar o papel de parede, as figuras de fundo da área de trabalho, os “protetores de tela”, os ponteiros do mouse etc. Essas alterações não danificam o computador (geralmente), mas se cada aluno resolver personalizar o seu computador cada vez que for usá-lo teremos um tempo de aula considerável despendido nisso.
Para garantir que os alunos se acostumem a utilizar o computador sem alterarem suas configurações-padrão (*1), pode-se usar uma estratégia bem simples: combina-se isso com eles inicialmente, pois tudo deve ser previamente combinado com os alunos, e depois se faz um controle de uso registrando-se quais são os alunos que estão em cada computador. Isso pode ser feito de forma fácil e rápida e a folha de registro de uso pode ter um formato parecido com essa tabela ilustrada abaixo:
Data |
Entrada |
Saída |
Comp. |
Nome |
Observações |
Responsável |
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Nessa tabela anotamos a data, a hora de entrada e de saída do aluno (ou dos alunos) em cada computador, o número ou nome que identifica o computador, o nome (ou o número de chamada dos alunos) e a classe, observações pertinentes (como alguma traquinagem que algum aluno fez ou algum computador que “travou”) e o nome do responsável da sala naquele momento.
Se alguma coisa der errado como, por exemplo, quando um aluno altera as configurações do computador ou coloca uma senha indevida nele, sempre saberemos quem estava utilizando o computador naquele momento. Para garantir isso combinamos antecipadamente com os alunos que eles devem relatar qualquer “problema” que tenham encontrado ao assumirem o computador. Com o tempo isso vai se mostrando cada vez menos necessário, pois os alunos “acostumam-se” a utilizar o computador sem querer “personalizá-lo”.
Outro grande “medo” do professor iniciante no uso da sala de informática é o de não saber explicar aos alunos como usar um determinado recurso do computador. Por exemplo: um aluno pode querer saber como fazer para colocar bordas coloridas em uma tabela do Word. Oras, quem precisa saber disso? O professor não precisa saber ensinar informática aos seus alunos, mesmo porque sempre haverá algum aluno que saberá colorir as bordas da tabela e poderá ensinar isso a quem quiser, mas essencialmente o que o professor precisa saber é o que o aluno deverá aprender de sua disciplina naquela atividade que está sendo desenvolvida. A tabela, ou qualquer outro recurso do computador que poderá ser utilizado, sempre será um “mero detalhe”, e se a borda for colorida ou não isso não deve afetar o aprendizado do aluno, não é mesmo?
O que é sim necessário é que o professor não solicite do aluno nenhuma tarefa que ele, aluno, não possa cumprir sozinho ou com a ajuda do próprio professor. Assim, por exemplo, se o professor não sabe como criar uma tabela no Word, não faz muito sentido que ele peça ao seu aluno que o faça, da mesma forma que não faz muito sentido pedir a um aluno que resolva uma equação matemática que o próprio professor não consegue resolver. Mas isso, quando ocorre, não é, obviamente, um problema decorrente do uso do computador, mas sim um problema decorrente de um mau planejamento da própria aula.
O mesmo é válido quando o professor resolve utilizar algum software educacional. Se o aluno será colocado diante de um software específico que ele nunca viu antes, então é natural que ele tenha muitas dúvidas sobre como operá-lo. É claro que, nesse caso, o professor deve planejar antes a utilização do software e deve ele mesmo aprender a utilizá-lo de forma a ser capaz de ensinar ao aluno sobre como utilizá-lo também. Assim, tanto quanto em uma aula tradicional, o professor deve sempre ter um planejamento de aula que vise atingir seus objetivos pedagógicos para aquela aula, quer seja na sala de forma tradicional, quer seja na sala de informática, bem como ter o domínio necessário do conteúdo e das técnicas que serão empregadas no aprendizado daquele conteúdo.
Para quem nunca levou seus alunos na sala de informática também pode ser interessante, e geralmente o é, investir um tempo visitando essa sala e se ambientando a ela antes de utilizá-la. Um recurso poderoso que também pode e deve ser utilizado consiste em participar como “assistente” em uma aula de outro professor mais experiente no uso da sala de informática. Saber como outros professores utilizam esse recurso é um aprendizado gratificante e que pode contribuir em muito no sentido de dar mais segurança ao professor iniciante nessa prática pedagógica. Além disso, é extremamente improvável que algum professor atual tenha aprendido noções de como utilizar a sala de informática em suas práticas pedagógicas durante seu próprio curso de formação na universidade, logo, nada mais natural do que aprender a utilizá-la com quem já sabe como fazê-lo e in loco.
Enfim, usar a sala de informática não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, mas talvez seja um bicho de seis cabeças... Como qualquer coisa “nova” é preciso aprender a usar a sala de informática e lutar muito contra o “medo de errar”. É preciso aprender a trabalhar com grupos e com dinâmicas de trabalho não-lineares, administrar rigorosamente o tempo e atender a múltiplas solicitações dos alunos. Tudo isso pode gerar muita insegurança ao professor principiante no uso da sala de informática, mas você ainda se lembra de como foi quando entrou pela primeira vez em uma sala de aula normal e teve que enfrentar a turma? Pois é... Os desafios são os mesmos de sempre.
Então, que tal tomar um bit (*2) de coragem e colocar a mão no teclado?