Sistema de Ensino Integral
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O difícil recomeço
Por José Carlos Antonio     Atualizado em 9/11/2005 15:37:34  Página 1 de 3   próxima >  

Imagine a seguinte situação: você é hoje um profissional experiente, com boa formação, uma carreira sólida, cursos de atualização, bom relacionamento profissional e um bom desempenho no seu trabalho. Bom, talvez lhe falte um salário maior, mas vamos deixar esse detalhe de lado, por enquanto.

Então, em um belo dia, alguém chega sorrateiro e lhe diz: “olhe bem para este aparelho aqui, daqui para frente você deverá utilizá-lo para fazer a mesma coisa que já faz, talvez faça um pouco melhor, mas não deverá fazer pior nunca, certo? Esse aparelho requer algum estudo para que seja bem utilizado, principalmente na sua profissão, mas não há ainda manuais sobre como usá-lo corretamente. Infelizmente  ninguém lhe falou dele durante sua formação, na verdade ainda hoje os profissionais da sua área não aprendem a usá-lo durante seus cursos de graduação, mas você deverá usá-lo mesmo assim. Boa sorte!”.

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Essa situação aparentemente estranha descreve justamente a forma como os computadores entraram na história de muitos professores. E talvez você seja um deles.

É mais do que natural que muitos professores não compreendam muito bem por que deveriam passar a usar os computadores em suas práticas pedagógicas já que:

1 - o professor que já é experiente sabe “ensinar” sem o uso dos computadores;

2 - muitos professores não usam computadores nem para seus próprios afazeres particulares e não vêm como nem por que deveriam usá-los na escola;

3 - o computador parece uma máquina frágil e complicada que requer muito estudo para seu manuseio;

4 - não há cursos e capacitação que ensinem a utilizar o computador como ferramenta pedagógica na escola.

Talvez pudéssemos enumerar mais alguns bons motivos, mas esses quatro já são suficientes para que qualquer professor que nunca tenha utilizado um computador como ferramenta pedagógica se questione se vale mesmo a pena se aventurar nesse “novo mundo”.

Apesar de todas as recomendações para que os computadores sejam usados nas escolas, há uma certa tolerância que permite que o professor experiente não os utilize e se justifique fazendo uso dos argumentos acima ou de outros, logo, é perfeitamente possível “não utilizá-los” justificadamente. Aliás, essa “certeza” de que os computadores podem ser ignorados acaba sendo mais um argumento para sua não utilização. Mas será que podemos e devemos mesmo ignorá-los?

Vamos olhar mais atentamente para cada um dos argumentos acima e refletir um pouco mais sobre cada um eles, começando pelo primeiro argumento.

É verdade que o professor sabe ensinar sem fazer uso dos computadores, da mesma forma que ele pode ensinar sem fazer uso de vídeos, retro-projetores, projetores de slides, livros e até mesmo sem os velhos giz e lousa. Mas a questão verdadeira não se resume em o que se pode fazer “sem os computadores” e sim no que se pode fazer “com os computadores”.

Por exemplo, sem os computadores o professor de geografia pode facilmente falar sobre a importância do bom manejo dos solos e do uso das curvas de nível na agricultura. Um bom material didático certamente trará alguma foto ou ilustração mostrando isso, mas que tal se ele pudesse levar os seus alunos em um sobrevôo pela própria região onde habitam e nesse sobrevôo ele pudesse mostrar as plantações das vizinhanças e as curvas de nível reais? Isso não seria bem mais interessante?

Representação esquemática de curvas de nível

Colocar toda uma classe em um avião e fazer essa viagem não é muito simples; apelar para a imaginação dos alunos também pode não ser tão fácil, mas com um computador isso pode ser feito a “custo zero”.

A imagem abaixo foi capturada no programa Google Earth e mostra uma bela fotografia tirada por satélite de uma plantação de laranja na região de Jaguariúna, próxima a Campinas, no Estado de São Paulo. É claro que essa imagem é bem melhor do que uma simples ilustração. Na imagem pode-se não apenas ver as curvas de nível reais como também a maneira como as plantações são dispostas para atender às necessidades da topologia do terreno. A imagem fotográfica deixa de ser uma simples abstração do conceito de “curva de nível” e passa a ser uma idéia concreta para o aluno, algo que ele pode identificar de imediato com sua realidade.

Mas não seria bem melhor se o aluno pudesse ter uma idéia tridimensional das curvas de nível? As curvas de nível recebem esse nome justamente por serem curvas “de mesma altitude” (mesmo “nível”); em um esquema vemos essas altitudes indicadas como números sobre as linhas que representam as curvas de nível, mas em uma fotografia com vista superior, como a mostrada acima, nem sempre fica claro que cada curva de nível se encontra em uma mesma altitude.

Que tal então se a mesma imagem pudesse ser vista de outra perspectiva, uma perspectiva onde seja possível perceber a tridimensionalidade (o relevo)? Se você estiver usando esse programa, o Google Earth, basta mais um clique de mouse e...

Bem melhor assim, não? E se agora, com apenas mais um clique no mouse, você pudesse sair sobrevoando essa região e observando como os agricultores “desenham” suas plantações em função do relevo? Seria muito melhor, não é? E isso tudo é possível! O programa Google Earth é gratuito e você pode baixá-lo no endereço fornecido na seção de links.

Você também pode girar a imagem, afastar, aproximar, experimentar outras perspectivas e explorar dezenas de outros recursos. Um deles, por exemplo, consiste em simplesmente passar o mouse sobre a curva de nível e observar na barra de informações abaixo da imagem a altitude em relação ao nível do mar de cada ponto. Aliás, note na foto que você também tem a indicação correta da direção (norte-sul-leste-oeste), as coordenadas de latitude e longitude exatas do local e a altitude de onde a imagem está sendo observada.

É muito difícil crer que um professor de geografia que já seja um ótimo professor não possa ser um “mais que ótimo professor de geografia” se dispuser desses recursos extras para uma aula sua que já é muito boa sem eles. Já para o aluno eu creio que seja muito mais produtivo aprender sobre relevo e sobre as curvas de nível “vendo” e manipulando os dados reais de forma direta do que por meio de esquemas e representações puramente abstratas.

Assim como nesse exemplo, também poderiam ser enumeradas centenas de outras possibilidades de uso desse e de outros tantos programas para todas as demais disciplinas. O universo de possibilidades aumenta exponencialmente a cada dia e não há absolutamente nada que indique que um ótimo professor não vá se tornar um professor melhor ainda tendo à sua disposição esses novos recursos.

O segundo argumento diz respeito à falta de uso do computador no dia a dia do professor. Essa é, a meu ver, a maior dificuldade para o uso pedagógico do computador nas escolas, pois professores que não usam computadores rotineiramente tendem a criar uma idéia muito fantasiosa sobre esse “eletrodoméstico moderno”.

Se o professor ainda escreve suas avaliações e listas de exercícios a mão, ou as datilografa em uma velha máquina de escrever, então talvez seja o caso de experimentar digitá-las em um computador. Se o professor ainda vai ao banco pagar suas contas, então talvez deva experimentar usar a Internet. E mais importante, esse professor deve começar a conversar com seus amigos que usam computadores regularmente e se informar com eles sobre as possibilidades de uso que certamente facilitarão sua vida pessoal bem antes de facilitarem sua vida profissional.

A velha máquina de escrever

Por fim, se o professor não possui um computador em sua casa, então talvez seja interessante e importante que a escola disponibilize o uso dos computadores da Sala de Informática para o corpo docente de forma “livre”, ou seja, de maneira que o professor muito antes de usar os computadores para ensinar sua disciplina comece a usá-los em sua própria vida. Um professor que comece a usar os computadores hoje, ainda que para “jogar paciência”, tem uma grande chance de ser um professor que usará a Sala de Informática para ensinar sua disciplina de forma bem mais interessante para os alunos e para ele mesmo. É preciso começar a usar os computadores de alguma forma, mas não é preciso que essa forma seja diretamente o uso do computador como instrumento pedagógico de trabalho.

O terceiro argumento diz que os computadores são máquinas frágeis, caras e de difícil manuseio. Bom, isso não é verdade e se fosse nós nunca gastaríamos nosso dinheiro comprando computadores para nossos filhos, não é mesmo?

Quebrar um computador, apenas usando-o, não é tão fácil quanto se imagina.

Computadores não quebram somente porque o usuário não é especialista em computação. Na verdade é muito difícil quebrar um computador apenas usando-o. Esse assunto já foi abordado uma vez no artigo “Quebrando computadores” (veja na seção de links) e sugiro que o professor temeroso de quebrar seu computador (ou o computador da escola), ou que seus alunos o quebrem, dê uma lida nesse artigo.

Também não é difícil manusear um computador. Se você não acredita em mim então pergunte a qualquer criança com mais de três anos de idade e ela irá lhe ensinar uma porção de coisas que se pode fazer com um computador. E se uma criança de cinco, seis anos de idade, já sabe usar o computador e a Internet, por que um adulto com curso superior completo não poderia fazê-lo também?

Se eles conseguem, por que nós não conseguiríamos?

Finalmente, o quarto argumento diz respeito à falta de cursos de capacitação que ensinem o professor a usar o computador como ferramenta pedagógica. Em grande medida isso é verdade e provavelmente continuará sendo assim até que os computadores sejam introduzidos na rotina dos professores e até que as universidades incluam em seus currículos uma prática de ensino voltada à incorporação das novas tecnologias.

Mas isso não quer dizer que não existam recursos disponíveis atualmente para a capacitação dos professores, quer dizer apenas que esses cursos e recursos dificilmente “virão à procura do professor” na quantidade e no tempo que seria desejável. Mais fácil é que o professor procure, ele mesmo, por esses recursos quando decidir que quer inovar sua prática pedagógica.

A maioria dos recursos atuais destinados a ajudar o professor a utilizar o computador como ferramenta pedagógica está disponível na Internet. Para acessar esses recursos o professor precisará ter alguma forma de acesso à Internet e algum tempo disponível para estudá-los e interagir com outros professores. Grande parte desses recursos consiste em “relatos de experiência” de outros professores, dicas de aulas, fóruns e comunidades virtuais de discussão sobre temas relativos ao uso dos computadores, portais e sites educacionais que oferecem cursos e ferramentas pedagógicas, programas de computadores, revistas voltadas à educação e artigos, como esse aqui, que abordam o tema.

Professores da cidade de Floresta, no sertão de Pernambuco, em uma oficina de capacitação

A cada dia que passa torna-se cada vez mais necessário o uso de computadores em nossa vida cotidiana. Nossos alunos viverão em um mundo povoado de computadores por toda parte. As escolas tendem invariavelmente a incorporar os computadores como “dispositivos auxiliares ao ensino”, assim como incorporaram o mimeógrafo, o retroprojetor, o projetor de slides, o videocassete e mais atualmente os aparelhos de DVD.

Lousa digital: tecnologia já disponível, mas cara

Em algumas poucas escolas os professores já dispõem de lousas digitais e os alunos de cadernos digitais ─ o que o professor escreve na lousa vai diretamente para o caderno do aluno e o professor pode conferir o exercício que o aluno resolveu em seu caderno digital com um simples clicar de mouse.

Em um número maior de escolas o professor já dispõe de um datashow ligado a um computador à disposição em sua mesa, enquanto os alunos podem ou não dispor de computadores em suas carteiras. Nessas escolas o professor pode usar o quadro-negro tradicional ou o datashow para projetar sua aula diretamente do computador para um telão.

Um número maior ainda de escolas dispõe, pelo menos, de um ou dois computadores dentro da sala de aula, para uso coletivo do professor e dos alunos. Nessas escolas os computadores já começam a fazer parte da rotina da aula.

Mas, inegavelmente, um número muito grande de escolas já dispõe, pelo menos, de uma Sala de Informática, ainda com um número reduzido de computadores, mas suficiente para que o professor e os alunos possam desenvolver lá atividades de aprendizagem com o auxílio dessa ferramenta.

A tendência para os próximos anos é que cada vez mais os computadores invadam as escolas, das mais sofisticadas às mais humildes, e cada vez mais será necessário fazer uso dessas maquininhas para promovermos um ensino de qualidade. A questão já não é mais de “opção de uso” por parte do professor ─ “posso ou não usar os computadores” ─ mas sim de “decisão de uso” apropriado ─ “como devo usá-los da melhor forma?”.

Se você leu esse artigo, então provavelmente você já é um usuário dos computadores e da Internet, mas o que você acha da idéia de imprimi-lo e o disponibilizar na sala dos professores da sua escola para que outros professores, que não utilizam ainda os computadores, possam lê-lo e, quem sabe, começarem a se aventurar nesse novo mundo digital?

Talvez o melhor argumento para convencer seu colega de profissão a começar a usar os computadores seja o seu próprio depoimento para ele sobre a forma como você já os utiliza, quer para seu uso próprio, quer para suas aulas. E então, vamos ajudar os colegas?

Para entrar em contato com o autor por e-mail: profjc2003@yahoo.com.br

 
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